Tudo bem, eu não sei fazer chamadas interessantes mas vou tentar: sexo, conflitos adolescentes, drogas, make up colorido,violência e uma boa trilha sonora, esses são os elementos principais presentes em Euphoria.
Euphoria é o que mermo?
Para citar a HBO, produtora do show, Euphoria segue “um grupo de estudantes do ensino médio enquanto eles navegam entre drogas, sexo, descoberta de identidade, trauma, mídia social, amor e amizade.”, que é uma descrição bem básica do que ocorre na série, mas assistindo são outros five hundreds.

Em primeiro lugar, Euphoria é um seriado da HBO, e como tal é carregado de um traço mais cru, mais realista, e diriam as más línguas, apelativo e polêmico, carregado de violência contra a mulher. (Pelo qual a empresa já foi criticada, e não parece estar fazendo nenhum progresso ou mudança, mas isso fica para um outro texto.) Desde sua abertura, Euphoria nos apresenta várias informações sobre a discrição do expectador ser necessária. E acredite elas são.
Assisti o primeiro episódio da série duas vezes, por não ter conseguido me concentrar com o barulho, durante o dia na minha casa, e a sensação que eu tive ao findar do segundo episódio foi de incômodo, de perturbação, desconforto. Acredito que o meu incômodo, e provavelmente de todo mundo que assistiu e porventura o sentiu, foi algo desejado pela direção e roteiro, a obra se propõe a ser choque de realidade. Buscando retratar os nosso jovens na era da informação, Euphoria se propõe a mostrar cenas que vão desde ereções masculinas, aos vômitos copiosos e incontáveis cenas de sexo.
Mas e o Enredo?

Euphoria se concentra em contar a história de 8 personagens principais, todavia, privilegiando a história de Rue Bennett, interpretada por Zendaya Coleman, que já posso começar fazendo meu primeiro elogio, brilha durante toda a obra. Rue é uma adolescente que está voltando para casa após passar o verão em reabilitação, para se recuperar do seu vício em drogas. Minha primeira surpresa com a série já começa no primeiro episódio. Rue além de protagonista, narra a história, e obviamente como todo narrador personagem, te deixa de orelha em pé sobre a confiabilidade do relato.

Desde a apresentação de Rue sabemos que além de contar com o vício, ela possui problemas mentais e esteve desde cedo sob medicação controlada. Durante seu crescimento, perder o pai abala sua jornada, e fica claro que é uma dor que ela não processou. A sequência de acontecimentos que ocorre a partir daí é quase como assistir um castelo de cartas em colapso, inevitável. O ponto de ebulição na vida de Rue, é a mudança de Jules para cidade.

Jules Vaugh, interpretada por Hunter Shafer é de longe, para mim, o segundo maior acerto em Euphoria, uma atriz trans, interpretando uma personagem trans, onde seu gênero não é o assunto, pelo contrário, é algo normalizado e posto. Não há um questionamento, não há um sofrimento, o personagem não se resume ao seu gênero, é uma lufada de ar fresco. Dito isso, Jules é um personagem complexo e confuso, em busca de auto afirmação através do sexo, que se coloca em situações desesperadoras, eu diria, pela conquista da feminilidade.

Já Kat Hernandez, vivida por Barbie Ferreira, que é filha de brasileiros, é o terceiro ponto forte dentre as narrativas demonstradas. A menina gorda que descobre dentro de si o poder de se enxergar como digna de atenção, como merecedora de espaço, como realizadora dos seus próprios desejos, ainda que para que ela consiga alcançar isso utilize meios perigosos e ilegais. Kat foi uma das personagens que mais me cativou, por não trazer mais do mesmo nas mesmas narrativas, e sim mostrar que ainda que sejam adolescentes eles não precisam ser sempre estereótipos.
Dito isso, se você viu um seriado adolescente você viu todos. Calma, não me odeie ainda, (ou me odeie, sua escolha) mas a verdade é essa. A HBO pegou um modelo já bastante conhecido, que é o de retratar jovens durante o período mais torturante da escola, o ensino médio, passando pelos conflitos familiares, problemas no colégio, vestibular, incertezas sobre a vida, quem você é, sua sexualidade, o que quer, para onde vai daqui há alguns anos, etc, e adicionou consumo exacerbado de álcool e drogas, múltiplas cenas de sexo e voilá! No geral os conflitos não fogem muito do que foi visto de forma mais branda em The OC, no começo dos anos 2000, com mais pompa em Gossip Girl lá por 2007, ou de forma britânica em Skins.

Eu sei, parece que estou banalizando a série que algumas pessoas estão dizendo ser a melhor do ano, e juro que essa não é minha intenção, entretanto, em maior ou menor escala, tirando as personagens que eu destaquei acima, e detalhes na construção de enredo, roteiro e outros personagens tudo é mais do mesmo. Vou exemplificar, do consumo exacerbado de drogas e vício que destruiu famílias,gravidez adolescente, bullying, cyberbullying, conflitos familiares, disfunção parental, alienação parental, morte, sexo, drogas… Todos os temas estão presentes em todas as séries que citei. A única diferença é que em Euphoria tudo é avaliado para maiores de 18 anos e é uma produção HBO.
E os paranauê técnico?
A parte técnica de Euphoria é para mim o que merece mais elogios. Desde a forma com a qual algumas cenas são filmadas, o corte, as luzes, as cores, a direção de arte da série é muito bem sucedida, e a fotografia da série em algumas cenas é primorosa. A ambientação das cenas nos passa exatamente o necessário, existem cenas em que você precisa se sentir imerso e sufocado junto com a Rue, como no episódio 7, que é o melhor episódio da primeira temporada em minha humilde opinião, e a forma com a qual todo o episódio foi filmado e cortado te deixa estufado e desconfortável assim como o momento que a personagem vive.

Seja no jogo inteligente de câmeras toda vez que Rue está drogada, ou na forma com a qual as cenas transacionam de etéreas e tonalizadas em neon, para sujas e pesadas dependendo que acontece, o talento da equipe técnica por trás dos episódios é notável.
A trilha sonora é outro ponto forte de Euphoria, contando com nomes como Drake, Future the Prince e Labirinth, os tons variam de intimistas e doces, até o pop que não desgruda da sua cabeça nunca mais em alguns episódios. Contando com nomes que vão de Beyoncé e Madonna, a Lizzo, Bts e Air Supply, a trilha emoldura e tempera os episódios de forma gostosa e bem executada.

¯\_(ツ)_/¯
E tem algo de novo?
Apesar de não ser uma expert no assunto, desde o primeiro episódio de Euphoria, senti que o produtor Sam Levinson não mediu esforços para nos mostrar que o ambiente em que esses adolescentes vivem não é saudável. É como se eles fossem colocados como ratos num laboratório, e a cada episódio, a cada acontecimento, alguém controlando as rédeas nos dissesse: Ok, como poderíamos piorar a vida desses gafanhotos? As situações escalam, e jovens fazem exatamente aquilo que se espera deles, cometem erros. Talvez seja aí que Euphoria nos apresenta algo de novo.

Apesar de lidar com seu conflito americano de subúrbio com cerca branca, Euphoria produz sim um esforço de mudança. A forma crua que o vício da Rue é posta, como isso devasta suas relações familiares, não é algo glamourizado, é um choque de realidade necessário e válido. O apoio e suporte recebidos pela personagem que engravida na história, e o fato dela receber um amparo familiar incondicional, procurar o planejamento familiar para realização do aborto, e todo este processo ser feito sem recriminação ou culpa, ser normalizado, é um outro ponto importantíssimo na trama para mim. As relações de amizade entre as protagonistas são sólidas, ainda que em certos momentos elas enfrentam percalços.

Nate Jacobs, ou como eu gosto de chamar: CHERNOBYL
Sexualidade e a fluidez da mesma, principalmente na adolescência também é um acerto em Euphoria, nunca ocorre um questionamento sobre as sexualidades das protagonistas. Pelo contrário, a frase “Sexualidade é um espectro” é repetida inúmeras vezes e diversos contextos durante a série, o que é mais um passo largo em busca da normalização. Os relacionamentos abusivos são mostrados pelo que são, tóxicos e indesejáveis, fora da curva e preocupantes, e ainda que eu não concorde com a permanência de um deles, acredito que a segunda temporada, que já foi confirmada, poderá solucioná-lo.

Outro ponto que eu espero que eles lidem é a masculinidade tóxica presente na série. Seja ela nos personagens adolescentes, Nate Jacobs, interpretado por Jacob Elordi, e sua escancarada masculinidade branca, tóxica e reprimida. Ou na masculinidade tóxica de Chris McKay, vivido por Algee Smith, que advém da insegurança, e de uma vida inteira tentando atingir as expectativas de seu pai, que vive pelo lema que toda criança preta já ouviu: “Você tem que ser duas vezes melhor que eles.” Ambos possuem comportamentos nocivos que precisam ser corrigidos e que são enraizados pelo criação e comportamento de suas figuras paternas. Não é possível que o macho menos escroto da série seja o traficante de drogas!

No fim desta canção
Apesar de não ser nem de longe a melhor série deste ano para mim, eu acredito que Euphoria tem seus méritos (Hello, Eric Dane peladão!!!! MC STEAMY <3 ) e se você gosta do gênero, provavelmente vai gostar de assisti-la. Acredito que verei a segunda temporada, nem que seja pela curiosidade de saber o que a Rue vai aprontar, ou por músicas novas para minha playlist.

Euphoria é uma produção HBO, criada por Sam Levinson, que foi inspirada por outra série israelense, o que acabou me lembrando de um outro seriado famosinho adolescente, que se você gostou de Euphoria, pode gostar também: SKAM. É tipo Malhação, só que norueguesa, com sexo, drogas, personagens LGBTS e vários questionamentos religiosos e quiçá filosóficos. Além da norueguesa, existem também as versões: francesa, espanhola, italiana e americana. Assiste Skam, e depois me conta se série adolescente é ou não mais do mesmo.
Um beijão, e até a próxima.
Ps: Não chora não que eu já já volto pros textos sobre animes 😉