O espelho da globalização, identidade cultural

O espelho da globalização, identidade cultural

A internet e o processo de globalização aceleram cada vez mais o intercâmbio cultural, no qual produtos midiáticos se tornam representações da identidade cultural de uma nação. No entanto, o desenvolvimento das mídias também permitiu a propagação de preconceitos raciais, muitas vezes disfarçados como uma representação de “exotismo”. Logo, uma resposta possível para essas práticas é quando um país produz seus próprios símbolos, usando a arte como uma bandeira para a independência. 

Foto Não é Autorretrato

Em princípio, Somos humanos, conduzimos nossas opiniões por nossos conhecimentos prévios, a internet possibilita que essas informações viajem o mundo e sejam somadas ao processo de globalização, e se esses conhecimentos vêm de um estereótipo preconceituoso… o resultado pode ser desastroso. Tendo isso em vista, todo brasileiro já viu, em algum momento, o personagem “Zé Carioca”.  A Disney, no período da política de boa vizinhança dos Estados Unidos, o criou para ser uma representação de um personagem brasileiro (podemos usar a palavra representação, mas caricaturização vale também)

O Zeca é da boemia, do samba, da preguiça, das pequenas corrupções cotidianas, e do jeitinho brasileiro por si. Mas, infelizmente, não do jeito que nós nos vemos, é um recorte muito pequeno, caricato. Zeca não escreve cordel, Zeca não conhece Tupã, Zeca não toma chimarrão, Zeca não fala “uai”, Zeca não é cria de favela… é um pedacinho muito pequeno, mas muito pequeno mesmo da identidade brasileira.

Ao Brasil reservam um exotismo tropical imposto, pegam um pedacinho só, e no fim, se perguntar… ainda acham que falamos espanhol.

Cena do Filme “Você já foi a Bahia?” Na cena: Zé Carioca, Pato Donald e Aurora Miranda.

O reflexo no espelho pode ser lindo

Ver uma representação caricaturizada da sua cultura é, realmente, angustiante.

Entretanto, quando o reflexo é sincero, a consequência é uma onda de satisfação, como na América Latina, esse pedaço de terra quase ignorado pela globalização, conseguiu nas décadas passadas construir seus próprios símbolos, os quais atingiram extensões globais. 

Na televisão, Roberto Bolaños cria o Chapolin Colorado, um herói ibero-americano. Todo errado, com certeza, mas quem nunca sentiu satisfação com aquele episódio em que ele “janta” o Tio Sam? Pois é, A mágica de Bolaños é fazer os “grandões” virarem a piada, faz de propósito, mira no sentimento de desalento, nos americanos que não são chamados de americanos, e os une pela risada. Outrossim, o Roberto não está sozinho nessa: sonhamos em ser salvos pelo Chapolin ao mesmo tempo que sonhamos em ser amigos da Mafalda.

Outrossim, Em suas tirinhas, Quino usa a Mafalda para, com um incrível poder de síntese, colocar em palavras o sentimento de toda uma juventude: o desalento. É ver essa garotinha, tão questionadora, tão normal, vivendo em um contexto tão semelhante com o nosso, tirando as palavras da nossa boca – e coração – e pondo no papel; É esse sentimento de unidade, de que você não está sozinho, que tá tudo bem não ser o Batman ou a Lara Croft. Você pode ser o Chaves, a Mafalda, e você não estará sozinho.

Essa é a força de uma representação que condiz com o sentimento de uma nação, é o prazer de se olhar no espelho e amar o reflexo.

El Chapolin Colorado!

Falta espelho no Brasil

O ser brasileiro é algo muito complexo, cheio de variantes. A busca parece ser eterna. Talvez por que a resposta não esteja no Brasil pós globalização como ele é, mas sim no metafórico, naquele país que só a imaginação consegue visitar. Portanto, é necessário olhar o passado, reviver nossos símbolos históricos, sermos sinceros com nossa história.

Uma verdade assustadora é que não conhecemos nossos heróis, não conseguimos ser sinceros sobre suas biografias. Quem foi a primeira feminista? O que era o cangaço? É importante buscar nossas raízes, Tiradentes não é o herói que a história construiu, e Carnaval não é turismo sexual.

cena do filme “Uma história de amor e fúria”

Nesse contexto, a animação “Uma história de amor e fúria” faz uma reconstrução histórica para momentos decisivos do passado brasileiro, usando a mitologia indígena como ponto focal do roteiro, passamos pelas dores da Colonização, revoltas abolicionistas, ditadura militar e, ainda, uma previsão do futuro. Nos minutos finais do filme, um futuro em que a água foi privatizada, milícias governam o país e crianças são assassinadas… eu sei, parece o presente. A coesão do roteiro está na construção histórica, em como os conflitos passam de momento a momento. No fim, o filme te apresenta uma pequena luz sobre que caminho seguir para construir o que, afinal, é o ser brasileiro, ou pelo menos quem são os nossos reais inimigos. Vale muito, muito a pena conferir.

E, se estamos falando sobre globalização, temos que falar sobre Bacurau, te convido a conferir um texto, aqui do maratona, sobre o filme.

Enfim

Por fim, essas obras são produtos desse reflexo arranhado que o Brasil vê no espelho, elas vão lá no fundo da ferida, procuram a causa, quem sabe buscam uma solução, falam sobre como ser brasileiro é resistir, mesmo nos momentos que parecem improváveis, mesmo quando tudo indica que é perda de tempo.

Falando de algum lugar no universo - Carol Carlos

Olá, sou a Carol, leitora voraz e adepta a liberdade criativa, gosto de pensar meus textos como a introdução de uma conversa. Acredito que os textos tem alma e que a leitura deve sempre causar algum sentimento no final e incentivar a curiosidade sobre determinado tema. Espero conseguir cativar vocês com minhas singelas palavras.

2 Comentários
  1. Responder Luciano Bugarin 27 de outubro de 2020

    Parece que nossos vizinhos da América do Sul estão anos a nossa frente em questão de reconhecimento e orgulho de uma identidade e cultura nacional. Muito boa reflexão.

  2. Responder Pedro Henrique Corujeira 1 de novembro de 2020

    Fiquei muito feliz de ver "Uma história de amor e fúria", sendo citado no texto! Esse filme é bom demais e vejo pouca gente falando dele, desde a época do lançamento nos cinemas.

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