Conforme o Ferna escreveu nesse maravilhoso editorial, estamos no Mês Negro no Maratona de Sofá e como contribuição para este período tão especial, escrevi um texto unindo dois temas: desenhos animados e representatividade negra. E o escolhido para essa tarefa, foi o Super Choque, herói que conheci lá no começo dos anos 2000 e que me ensinou lições valiosas.
Eu vou dar choque no seu sistema!
Era com essa frase de efeito que se iniciava cada novo episódio de Super Choque, um desenho animado de super-herói, diferente de todos os outros que já havia visto durante a minha infância e entrada na adolescência.
Não consigo recordar em que ano e qual canal exatamente tive o meu primeiro contato com Super Choque, mas tenho certeza de ter assistido ao desenho tanto na tv fechada, pelo Cartoon Network, quanto na tv aberta, pelo SBT.
Fã assumido dos desenhos da Warner Bros e DC, não perdia um episódio sequer de Batman: The Animated Series, Batman do Futuro, Projeto Zeta, dentre outros. E com Super Choque não foi diferente! Afinal, amava histórias de super-heróis e não deixava nenhuma passar batida no meu radar.
No entanto, depois de começar a acompanhar o desenho semanalmente e ver o desenrolar da trama, notava que havia algo de diferente ali. Aquele não era só um desenho de herói sobre um cara com super-poderes tentando salvar o dia… Apesar de me faltar maturidade naquela época para entender a profundidade dos temas tratados, talvez tenha sido graças a Super Choque que ouvi falar, de maneira mais explícita, pela primeira vez, sobre racismo, representatividade e diversidade.
A frase “vou dar choque no seu sistema” passava a fazer todo sentido!
Choque de realidade
Como havia dito anteriormente, Super Choque foi, possivelmente, a minha porta de entrada para pensar temas que poderiam ter passado despercebidos naquele momento. Tendo crescido numa família de classe média e majoritariamente branca, muitos dos meus privilégios decorrentes dessa condição econômica e social me garantiam viver num mundo particular em que não havia necessidade de um confrontamento direto com a realidade de outras pessoas.
Hoje, tenho consciência do quão importante é o papel do Virgil, enquanto protagonista de um desenho animado de sucesso, ainda mais se tratando de um super-herói. Quando criança, não me faltavam personagens nos quais me sentia representado fisicamente, já que quase todo desenho ou série tinha, pelo menos, um cara branco de óculos (o estereótipo do nerd). Mas quando procurávamos personagens negros, eram poquíssimos. E ainda correndo o sério risco de serem mal representados, reforçando estereótipos físicos e culturais.

Quando penso no assunto, só me vem à cabeça o vídeo que viralizou nas redes sociais, com um grupo de rapazes negros chorando de felicidade em frente a um pôster do filme do Pantera Negra. Eles gritavam de alegria, expressando como estavam se sentindo e um deles disse algo do tipo “então é assim que os brancos se sentem o tempo todo!?”. Me pergunto se, de alguma maneira, com o Super Choque não foi parecido esse sentimento para algum garoto(a) ao assistir o desenho e poder se identificar com os personagens.
Assistindo Super Choque no passado, muita coisa passava batida por mim, como já comentei. O próprio fato do Virgil ser um personagem negro, não fazia muito diferença, que só estava atrás de um desenho de herói. Até mesmo a relação dele com Richie (meu sósia) era tão natural que eu só torcia pela amizade dos dois, sem sequer perceber quantas vantagens (privilégios) ele tinha sobre Virgil dentro daquela estrutura social.
Sobre esse assunto, vou falar mais detalhadamente no tópico a seguir…
Filhos dos Pais
Esse é o título do oitavo episódio da primeira temporada de Super Choque e, de longe, o meu favorito da série. Nele, Richie convida Virgil para dormir na sua casa, mas para o desespero do garoto, seu pai volta mais cedo do trabalho naquele dia e ao, encontrar Virgil por lá, não disfarça em momento algum seu desconforto.
Após um jantar desastroso no qual o senhor Foley (pai de Richie) atribui a música rap à marginalidade e ao uso de drogas, o golpe final vem numa discussão entre ele e sua esposa (que tenta acalmar os ânimos) em que diz estar cansado de lidar com “eles” no trabalho e agora tem “um deles” dentro da sua casa… Virgil escuta acidentalmente a discussão e resolve voltar para casa.

Richie, cansado do pai e de sua atitude racista, resolve fugir de casa, mas andando sozinho pelas ruas, acaba sendo raptado por uma gangue de meta-humanos. Sem sucesso na busca pelo paradeiro de Richie, o senhor Foley, a contragosto, acaba recorrendo ao pai de Virgil, senhor Hawkins para que o ajude, pois não sabe mais onde procurar.
É nesse momento, durante o diálogo entre ambos os pais que temos, na minha opinião, um dos melhores momentos de toda série. Ciente do que houve com Virgil, na casa dos Foley, o senhor Hawkins confronta o pai de Richie sobre como, ao longo de tantos anos, vem lidando com gente como ele, com ódio, repulsa e sentimento de superioridade, apenas por ser branco.
Humilhado por ter que descer desse pedestal social, o pai de Richie, fica sem palavras perante o senhor Hawkins, que ainda assim resolve ajudá-lo, pois gosta muito de Richie e se orgulha do rapaz ter sido capaz de romper com essa corrente de ódio cultivada pelo pai. No final, ambos cooperam para resgatar Richie e ainda contam com uma ajudinha do Super Choque e conseguem voltar para casa são e salvos.
Ecos no mundo real
Há duas razões pelas quais esse episódio é muito especial para mim: a primeira é ter me feito notar o importante meio de comunicação que é o desenho animado (e o mesmo vale para outras mídias), apesar de ainda hoje ter quem só o enxergue como mero entretenimento infantil (papel que ele também cumpre, sem problemas). Nunca tive uma conversa com meus pais sobre questões envolvendo racismo. Não fosse por Super Choque, quantos anos mais, teria vivido na sombra da ignorância sobre esse assunto.
A segunda razão é que vivenciei uma situação parecida com a do Richie ao levar um amigo em casa para realizarmos um trabalho de faculdade e, pelo fato de ele ser gay, meus pais terem implicado que ele dormisse lá em casa. Felizmente, de lá pra cá, a situação mudou muito positivamente.
Claro que, no caso de Super Choque, o racismo do pai do Richie, foi meio que solucionado de maneira mágica em poucos minutos, afinal estamos falando de um desenho animado do começo dos anos 2000. O debate sobre questões raciais e minorias ainda estava caminhando nesse setor, se comparado com os desenhos e quadrinhos que temos na atualidade.
Me alegra muito quando estou com as minhas primas, bem mais jovens do que eu, e vejo como elas lidam com o diferente de maneira tão mais natural e colocam os avós, pais e tios(as) no chinelo, fazendo com que pensem duas vezes antes de exporem ideias, piadas e expressões racistas. Não estar sozinho nessa luta é de grande ajuda.
Entre erros e acertos
Apesar de seus muitos méritos em abordar questões sociais, principalmente o racismo e a violência contra a população negra, o desenho animado do Super Choque também tem a sua parcela de deslizes e alguns são difíceis de perdoar.
Pesquisando sobre os bastidores da animação, encontrei uma entrevista antiga em que Dwayne McDuffie (um dos criadores do Super Choque nos quadrinhos) mesmo tendo seu nome creditado no desenho, confessa que não teve quase nenhuma influência na produção. Inclusive, demonstrou certa insatisfação com algumas decisões tomadas pelos produtores do desenho, como, por exemplo, o fato da mãe de Virgil ter sido assassinada num confronto de gangues na animação, enquanto que nos quadrinhos ela está viva.

A ideia, de acordo com McDuffie, era apagar o estereótipo de uma família negra vitimada pela violência e quase sempre retratada como pobre. No entanto, os engravatados do departamento de animação da Warner optaram por fazer como queriam.
O mais bizarro nessa história é que para adaptar a série para às manhãs de sábado, lá nos Estados Unidos, onde o desenho era exibido, foram necessárias adaptações relacionadas a conteúdo sexual e violência, então por quê c***** matar a mãe do Virgil!? Uma vez que a causa da morte dela só reforça ainda mais uma imagem negativa associada a esse grupo de pessoas. Parece que tínhamos alguns “pais do Richie” dentro da equipe de produção. E por falar no Richie, a versão animada eliminou quaisquer indícios de que ele é gay.
Energias positivas
Mesmo cometendo uma série de deslizes bastante delicados, ainda assim, acredito que Super Choque possa ter sido um passo importante na luta para vermos mais personagens negros ocupando papéis importantes nos desenhos animados, especialmente se tratando de animações para televisão e serviços de streaming.
Recentemente, tenho me deparado com diversos personagens negros em desenhos bastante populares entre o público infantil, como Craig Williams, protagonista de “O Mundo de Greg” no Cartoon Network; a Garnet de Steven Universo; o (novo) Arqueiro em She-Ra e as Princesas do Pode; a Babs Byuteman (melhor personagem) em Pinky Malinky, Clyde McBride em The Loud House e Miles Morales em Homem-Aranha no Aranhaverso.
Espero que essa lista continue crescendo e que nossas diversidades possam ser representadas, mesmo que para isso precisemos dar um choque no sistema!
O futuro do Super Choque
Este ano, durante o DC Fandom, a editora DC Comics, casa do Superman e Batman, confirmou o retorno dos quadrinhos da Milestone, para fevereiro do ano que vem! O selo dedicado a heróis negros e minorias, foi criado originalmente na década de 90, por quatro quadrinistas negros: Denys Cowan, Dwayne McDuffie, Derek T. Dingle e Michael Davis.

O Super Choque, personagem mais popular da Milestone, já tem uma nova hq garantida para fevereiro com o retorno do selo. Além disso, o ator Michael B. Jordan assumiu a produção da adaptação cinematográfica do herói, lado a lado, com a Warner.
2021 tem tudo para ser um grande ano de mudanças e mais diversidade nos quadrinhos de super-heróis, o que resta agora é aguardar por mais boas novas como essas.
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