Brigas sucessórias não são um tipo de história tão novo assim. Então porque diabo “Succession” foi a vencedora do Emmy 2020 de Melhor Série Dramática?
Sinopse
Um velho bilionário, dono de um império corporativo. Seus filhos competindo pelo posto de comando na empresa enquanto cagam na cabeça uns dos outros (e de todo mundo ao redor). A hipocrisia e a prepotência inata ao top 1% da sociedade capitalista global. Se tudo isso te parece lugar comum, pense de novo: “Sucession” fala sobre isso, mas de um modo bastante particular.
A sinopse, confesso, não parece muito animadora. O que a série oferece de cativante não é um drama familiar que passa pelos desafios de uma grande empresa, mas sim uma comédia dramática com tons sombrios sobre o que há e não há de humano no 1% que ocupa o topo da pirâmide na nossa sociedade.
Aparentemente, essa veia iconoclasta é o que Jesse Armstrong mais gosta de trabalhar. Não sabia, mas seu maior êxito anterior a “Succession” havia sido a série “The Thick of It”, que, pelo que pesquisei, se trata de uma comédia dramática com o mesmo apego pelo constrangimento (a tal da cringe comedy) focada no cotidiano do governo britânico.
Em “Succession”, essa abordagem encontra uma cinematografia cuidadosa que constrói um humor sombrio, incômodo e crítico indo além dos diálogos. A cereja do bolo são as atuações, que renderam prêmios individuais a Brian Cox, Jeremy Strong e Sarah Shook, assim como indicações a vários outros membros do elenco – inclusive Kieran Kulkin, meu queridinho, que na série vive uma espécie de Wallace Wells (seu personagem em “Scott Pilgrim Contra o Mundo”) só que bilionário e piorado, rs.
A Série
Até aqui, foram 20 episódios divididos em duas temporadas dando conta da história de um momento chave na vida da família Roy. Vemos Logan Roy, interpretado por Brian Cox, às voltas com decisões relevantes para sua empresa, Waystar Royco… Trata-se de um conglomerado empresarial que tem no setor de mídia sua galinha dos ovos de ouro: emissoras de TV, sites de notícias, jornais impressos, estúdios de cinema… se há um meio possível de veicular informação, a Waystar tem uma subsidiária atuando sobre ele. Além disso, a corporação tem um grande setor de hospitalidade, responsável por parques temáticos e cruzeiros
Mas seu comandante chegou aos 80 anos e agora é a hora de pensar na passagem de bastão. O interesse é mantê-la sob controle familiar, mas quem é o melhor nome? Kendall Roy (Jeremy Strong) parece o mais cotado, mas não é o único. Seu irmão mais novo, Roman (Kieran Culkin), é um playboy excêntrico que também está no páreo. E ainda há a irmã caçula, Shiobhan “Shiv” (Sarah Snook), estrategista política associada ao alto escalão do Partido Democrata, que além de filha do patriarca ainda tem seu noivo Tom (Matthew Macfadyen) como executivo na companhia. Por fora, há Connor (Allan Ruck), o primogênito liberalóide de 40 anos que vive em um rancho no deserto e, eventualmente, decide concorrer à Presidência dos EUA.
É aí que o passeio pela vida da Waystar Royco e da família Roy coloca a audiência na posição de quem assiste a um documentário sobre a natureza selvagem. Se escapulir um “nossa, que animal interessante”, não se julgue – é o que o roteiro espera de você mesmo.
A proposta da primeira temporada não se baseia em te fazer assistir “Succession“ por algum carinho ou afeição pelas personagens. A primeira cena mostra um velho Logan Roy aparentemente desorientado urinando no assoalho de sua própria casa no meio da noite, e na sequência seu filho Kendall sendo ridículo no banco de trás de sua limusine, golpeando o ar ao som de hip-hop enquanto se prepara para uma importante aquisição empresarial. Desconcertante, não? Essa é uma palavra que descreve bem a maior parte das situações em que vemos as personagens ao longo das 2 temporadas.
Nisso, já temos uma inovação interessante. Afinal, não faltam novelas e séries que abordem disputas sucessórias envolvendo corporações. A recorrência a “Rei Lear” de Shakespeare para assinalar o quanto estes são os novos impérios dos nossos tempos, com sua carga específica de traições e infidelidades, também não é em si a invenção da roda. O que “Succession” faz, que falta a outros shows com proposta parecida, é apontar o 1% do topo… e humanizá-lo apenas para que percebamos o quanto são desumanos.
Apesar do grande sucesso de crítica ter vindo apenas na segunda temporada, a primeira temporada me fisgou mais. A maior parte dela é construída em torno de situações-problema específicas e o gancho de atenção é: como vão resolver isso? É acompanhando o desenrolar dessas crises associadas ao comando da Waystar Royco que conhecemos mais sobre as personagens.
Mas, como disse, a série não te faz conhecer a família para que você a ame. Na verdade, um grande trunfo de Armstrong e sua equipe de roteiro foi construir personagens absolutamente detestáveis.
É por isso que o humor da forma como é pensado na série cai bem. Em uma cena, vemos um vídeo interno da Waystar sendo exibido nos monitores do escritório exaltando a diversidade existente na empresa, apenas para logo abaixo dele uma porta se abrir e dela saírem dezenas de homens brancos de meia-idade, todos com a mesma aparência e o mesmo visual.
eis que surge o Mc Kendall.
O riso vem fácil do reconhecimento dessas contradições, mas também aparece quando o constrangimento das personagens é exposto. As raras demonstrações de afeto, completamente vazias e provadas falsas logo em seguida, despertam riso por percebermos como ninguém envolvido de fato acredita naquele sentimento emulado. Na segunda temporada esse humor atinge seu auge nas interações entre a dupla Tom e Shiv.
Aliás, a segunda temporada rompe esse marco narrativo de episódios girando em torno de uma situação, abrindo mais espaço para o desenvolvimento das personagens – e, inclusive por isso, tendo angariado tantas indicações para prêmios de melhor atriz e melhor ator ao longo do último ano.
Percebeu que esse texto expressa um esforço gigante para não te dar spoilers? É porque um dos objetivos é que você vá conferir por si. A graça de “Succession“ não está apenas na história contada, mas em como ela se relaciona com a história vivida por todos nós.
O Mundo
Em um momento onde atenção é o ativo mais valioso do mundo, dados pessoais são o novo ouro e empresas de mídia demonstram dia após dia serem mais poderosas do que governos. Fazer uma história como “Succession” em torno de uma gigante do entretenimento bate bem certo em pontos fundamentais dessa discussão.
O primeiro e mais urgente, em um ano eleitoral como esse, é o impacto da mídia na propagação de ideias e posições políticas. Claro, em nossos tempos as coisas passam muito pelo papel das mídias sociais e sua distribuição de conteúdo, que comprovadamente favorecem agendas políticas de extrema-direita, mas a tal da “imprensa” não fica de fora.
Ao longo de parte da série acompanhamos a relação de Shiv com pré-candidatos à presidência dos EUA, e como o conglomerado de seu pai cai matando neles. Não chegou a dedicar 80 horas de seu principal jornal para criticar o candidato ao longo de dois anos (o que daria média de 15 minutos de detonação por dia), cof cof, mas vocês me entendem.
O fato é que, na série e na vida, é perceptível o quanto a imprensa sempre vai ter lado. E quanto maior for o conglomerado de imprensa em questão, maior a chance do lado escolhido por ele privilegiar seus interesses enquanto corporação bilionária… e não os de sua audiência, majoritariamente formada por cidadãos comuns, gente trabalhadora, como eu e você.
Outro ponto muito bem abordado pelo roteiro, e que chega perto da perfeição graças às atuações do elenco, é a empáfia dos super-ricos. Não, as personagens de “Succession“ não acham que o mundo gira em torno delas – elas tem certeza. Das decisões tomadas por motivos fúteis e impactando centenas e milhares de vidas à forma de se relacionar com pessoas que não vem do mesmo tipo de berço de ouro, o desprezo dos Roy é latente.
“Ele não pediu desculpas quando atropelou nossa babá com o carro. Foi culpa dela por ser muito baixinha, ele disse”.
Você pode até associar isso a uma misantropia niilista generalizada, apontando o quanto esse mesmo desprezo também se dirige aos seus próprios familiares. Mas olhe de novo, veja a diferença.
O gancho que a primeira temporada de “Succession“deixa para a segunda, ou mesmo a disputa fratricida, nada daquilo visa uma ruptura total. Nenhum dos filhos almeja sair, de fato, debaixo da asa do pai, ou se tornar inimigo mortal de seus irmãos. No desrespeito e na infidelidade todos ali são pares (como o magnífico quase-sorriso de Brian Cox na cena final da segunda temporada demonstra). É através desse comportamento, inclusive, que o pertencimento a família é comprovado ou questionado, como conseguimos acompanhar ao longo da história do primo Greg (Nicholas Braun), que representa um ser humano “comum” que de repente se vê como parte do cotidiano do creme de la creme do capitalismo estadunidense.
Alguns dos arcos que acompanhamos na série também apontam para situações bem concretas de nosso mundo.
Há quem diga que as tretas empresariais da Waystar Royco seriam levemente inspiradas nas brigas envolvendo o império de Rupert Murdoch, um dos oligarcas da mídia global em língua inglesa. A personagem Shiv, por sua vez, foi associada ao longo da série com Shari Redstone, CEO da ViacomCBS, um dos maiores conglomerados de mídia do mundo cujo comando ela herdou forçosamente de seu pai (sim, ela passou a perna no pai pra conseguir comandar). E em certo momento há o desenrolar de uma trama envolvendo uma série de abusos sexuais envolvendo uma subsidiária da Waystar Royco que nos faz pensar sobre os abusos sexuais ocorridos em diversos parques da Disney. A ficção, aqui, vai mais longe que a repercussão midiática real dos escândalos, pois aborda as políticas de acobertamento que podemos imaginar serem comuns dentro de companhias tão grandes.
Histórias pesadas, não é mesmo? É por isso que o tom adotado na série é tão importante para “Succession” ser tão aclamada. A gente sabe que, no mundo capitalista, é praticamente impossível ver o 1% mais rico da sociedade ser efetivamente responsabilizado pelos mal-feitos. Acompanhando a família Roy em uma produção tão primorosa, os “comuns” tem a chance de desprezá-los um pouco, como eles costumam fazer com todos nós. (E se você acha que isso é “politização desnecessária”, dá um saque na conversa que tivemos sobre isso há algum tempo com a influencer e acadêmica Sabrina Fernandes, do Tese Onze).