Com um anúncio surpreendente (e cheio de hype!) no dia 12 de junho, os canais oficiais da King Amusement Creative, uma subsidiária integrante da gigante editora Kodansha, mostraram o teaser para um novo anime de Shaman King em abril de 2021, pelo Youtube e pelo Twitter. Shaman King é conhecido no ocidente pelo anime clássico que fez parte da infância de gente como eu no início dos anos 2000, exibido no Brasil em canais como Fox Kids, Animax, Band e Globo. Desde essa época isso me levou, aficionado que sou, a explorar mais do universo oferecido pelo criador da obra, o nada convencional Hiroyuki Takei.
Esse universo não se limita a Shaman King, possui uma diversidade de obras e relações do Takei com outros autores do cenário japonês e até internacional, como ninguém mais ninguém menos que Stan Lee. Minha proposta aqui é apresentar alguns detalhes suculentos da trajetória de Takei e de Shaman King. Como falar de ambos os rumos juntos seria uma jornada dupla e cansativa para todos nós, dividi esse texto em duas partes.
Para quem caiu de paraquedas, Shaman King foi um mangá publicado em 1998 no Japão que conta as aventuras do jovem Yoh Asakura, treinando para se aperfeiçoar como xamã, aquele que conecta esse e o outro mundo. O objetivo de Yoh é participar do Shaman Fight, um torneio xamã que decide o rei dos espíritos, para conquistar seu sonho de ter… um estilo de vida sem preocupações! O mangá original foi lançado até 2004 e adaptado para um anime em 2001, que alcançou pessoas do mundo inteiro.
Mas como foi que Shaman King partiu do anime, finalizado em 2002, até o remake de 2021? Eu acompanhei parte dessa história, e quero te ajudar neste primeiro texto a entender a complexidade de eventos que levaram à ressurreição de Shaman King por completo e o que esperar do novo anime. Incorporem seus espíritos em forma de bola de fogo e vamos lá!
A estrada até aqui

O que é importante para entender o estado atual de Shaman King? Bem, temos que olhar primeiro para o que aconteceu com a franquia desde que foi lançada. Shaman King saiu pela Weekly Shounen Jump, que é da Shueisha, começando em 1998. Desde então, a publicação da franquia é uma história de cancelamentos, continuações e vários recomeços ao longo do caminho.
Eu nunca notei tanto o peso pessoal que o autor carregava sobre isso até ver uma entrevista do grupo Archipel, onde Takei lamenta o cancelamento abrupto da primeira publicação, em 2004. Ele nunca se identificou como um autor do tipo mainstream, apesar de ser comparado aos seus companheiros contemporâneos, como o grande amigo Eiichiro Oda (One Piece), e de Shaman King também ser comparado ao que veio ser proclamado o “Big Three” da Jump (One Piece, Naruto e Bleach).
Houveram boatos de que a Shueisha cancelou Shaman King porque a obra não era popular, mas hoje sabemos que ela é popular o suficiente para motivar re-publicações, incluindo o verdadeiro final, e diversos spin-offs ao longo do tempo. Acredito que a real razão pelo cancelamento de Shaman King foi a fadiga colocada sobre Takei, em parte pela rotina de trabalho pesada da Jump. Com o que percebi enquanto certa insatisfação e descontentamento, ele também sentiu que ao se dobrar às exigências por mais elementos tradicionais e estereótipos dos mangás shounen, Shaman King perdia sua originalidade, ficando genérico em alguns momentos. Takei revela que a criação dos personagens Tao Ren e Horohoro foi inicialmente associada a isso, mas sempre tentou driblar essa atribuição na medida do possível.
Ainda que fatigado pelas demandas de produção e desanimado pela aparente queda de popularidade da obra, Takei certamente não desistiu do universo que havia criado e não queria deixar os fãs com um gosto ruim de “inacabado”. Em outra entrevista (contém spoilers), ele revela que voltou ao mangá em grande parte porque não queria decepcionar os fãs, que inclusive fizeram campanha para que a Shueisha revivesse o mangá. Tudo isso parece indicar que a popularidade de Shaman King nunca foi um fator em seu cancelamento. Mas apesar dos perrengues da vida, após o cancelamento Takei se sentiu mais aliviado das exigências e nunca deixou de produzir nem para Shaman King nem na criação de outros projetos (que serão abordados na parte 2 deste texto).

Graças à notoriedade que conquistou, Takei pôde exercer sua criatividade e expandir os horizontes para além da Shueisha, onde trabalhava em paralelo nas continuações e derivados de Shaman King. Isto é, até a Kodansha (empresa rival da Shueisha onde Takei também publica) ganhar os direitos sobre Shaman King no Japão, Europa e Estados Unidos, em 2017. E assim, chegamos ao estado da arte das publicações de Shaman King: todos os novos trabalhos são publicados na Shounen Magazine Edge, e estão sob a égide do projeto de 20 anos da franquia, do qual o remake faz parte.
Renascer e reviver

Com o caminho das pedras andado, Takei é capaz de surfar na onda de remakes e continuações que outras franquias vêm passando (A exemplo de Sailor Moon e Bleach). Em 2017, a oferta para um novo anime de Shaman King foi realizada, mas nas palavras do próprio autor, no twitter (tradução livre):
“Para ser honesto, houve diversas discussões sobre um remake do anime, mas… Como não poderíamos usar os dubladores e a trilha sonora originais, eu recusei. Ainda assim, seria bom ter outra chance.”
E a chance realmente veio, ou Takei construiu seu caminho até ela. De fato, o anime de 2001 deixou uma marca inapagável. Pela animação afiada de momentos icônicos do princípio do mangá; pelas músicas e dublagem da diva dos animes dos anos 80, a Megumi Hayashibara, que é a voz da Anna; dentre outros dubladores e trilhas sonoras memoráveis. A julgar pela própria existência de um novo anime e pelo uso de “Over Soul”, abertura que é cantada pela Megumi, no teaser, há uma confirmação sutil de que Takei teve sucesso em seu desejo.

Entretanto, a adaptação da história no anime antigo sofreu com os padrões de produção da época. Fillers, eventos encurtados, arcos inteiros cortados e uma grande sequência de episódios sem base no mangá, que levaram a um final genérico. Na realidade, o anime só adapta fielmente (mais ou menos) até o volume 18 do mangá.
É importante notar que para nós aqui no Brasil, houve uma diferença crucial no número de volumes do mangá: a editora JBC utilizava o formato meio-tanko, que era metade de um volume original japonês (tankobon). A edição brasileira teve 64 volumes. Mas nela, os volumes 17 e 18 meio-tanko (vol. 9 japonês) corresponde ao arco da família do Tao Ren, que foi, sim, adaptado no antigo anime. Isso quer dizer que o volume 18 japonês se refere a uma porção mais avançada na história, onde o pai de Yoh, Mikihisa Asakura (Micky), treina a equipe composta por Ren, Horohoro e Chocolove. Esse e outros eventos estão presentes nos volumes 33 e 34 do Brasil, mas nunca foram para o anime.
Por isso, é uma notícia estrondosa para nós fãs que o projeto do novo anime promete adaptar os novos 35 volumes de Shaman King. Novos, porque originalmente, esses 35 eram 32 (volume do cancelamento de 2004). Entre 2008 e 2009, a Shueisha lançou as edições definitivas (Kanzenban) de Shaman King, um relançamento de alta qualidade que incluiu dois volumes extras contendo o final verdadeiro da história, conhecido como God’s End. Quando a Kodansha adquiriu os direitos da franquia, esses dois volumes foram adicionados à coleção completa.
Foi após o lançamento das edições definitivas que uma prometida continuação veio à vida: Shaman King Flowers. Prometida, pois Takei já havia feito uma série de spin-offs no tempo da Shueisha: Funbari no Uta (Poema de Funbari), um conjunto de pequenos contos com o destino dos personagens principais anos após os eventos de Shaman King. Nele somos apresentados a Hana, o filho de Yoh e Anna, que é o protagonista de Flowers, lançado entre 2012 e 2014.

O novo anime certamente vai ter muito mais conteúdo, que preencheria os 64 episódios do anime antigo com uma adaptação fiel e talvez até mais. Uma das principais diferenças está no arco que viria logo depois de onde o anime antigo parou de seguir o mangá: Monte Osore Revoir, o arco flashback que conta como Anna e Yoh se conheceram. Além de ser importante para entender a relação entre os dois, esse arco apresenta Matamune, o nekomata e primeiro espírito amigo do Yoh que possui profundas conexões com a família Asakura.
O arco é tão relevante que possui um Drama CD, financiado pelo próprio Takei. Além disso, ele tuítou em 2017 sobre querer usar uma ilustração feita para a música “Osorezan Revoir”, da Hayashibara Megumi, como possível encerramento, eventualmente. A música foi postada em 2011 num site da Shueisha, como comemoração do lançamento de Shaman King Zero, uma série de histórias curtas sobre os protagonistas que se passa antes da história principal. Tudo indica então, que há uma possibilidade de termos esse arco com a dubladora da Anna cantando a música num encerramento especial.


Outra adição importante ao elenco de Shaman King será Sati Saigan, uma das xamãs líderes das facções mais proeminentes do Shaman Fight, junto com Hao e Iron Maiden Jeanne. Sati e sua equipe, os Gandharas, não apareceram no anime antigo e completariam a tríade religiosa entre xintoísmo, cristianismo e budismo, respectivamente. O grande detalhe é que foi confirmado, recentemente, que Sati é a mesma personagem que aparece mais jovem num dos primeiros trabalhos de Takei, o Butsu Zone.
O arco mais atual da obra que está dando continuidade à Flowers, chamada Shaman King The Superstar, está trazendo Butsu Zone de volta à cena. Takei já havia trazido de volta em Flowers uma outra história dos seus primeiros dias de autor de mangá, o Death Zero, que continua tendo um papel central na trama de The Superstar. Podemos imaginar que com a fusão desses trabalhos ao magnum opus que é Shaman King, o universo de Takei está emergindo com mais força e pode abrir portas para novos animes da franquia.
Shaman King ainda conta com muito mais, ao ponto que não cabe tudo num texto só. Quer conhecer mais sobre Butsu Zone, Flowers, The Superstar, Death Zero e as outras obras do universo de Takei? Acompanhe a parte 2 desse texto! Nele, vou falar um pouco mais sobre o homem por trás da obra e trazer resumos de cada um dos seus trabalhos. E deixe seu comentário, qual a sua expectativa para o novo anime de Shaman King?

Saudações do outro mundo e que o Grande Espírito esteja com vocês!




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