Quem paga o preço da arte LGBT engajada?

Quem paga o preço da arte LGBT engajada?

Neste mês do orgulho LGBT, um movimento bem bacana de listagem de produções artísticas feitas por e para o público LGBT tem acontecido. Junto a isso, a reflexão importante sobre qual tipo de representatividade importa tem se feito presente. E a consequência positiva é que mais e mais artistas são cobrados a se posicionar em defesa dos direitos LGBT. Isso é ótimo. O problema é a miopia e os pontos cegos que existem em parte dessas cobranças.

Em live recente, Pepita deu a letra no meio de um desabafo em que denunciava a transfobia que sofre dentro do próprio movimento e comentou sobre as cobranças que fazem a ela: “amor, eu me posiciono desde a hora que eu abro o olho pra ver a vida”. Em outra transmissão, a artista fez um apelo: “marcas acham que eu só vivo este mês, mas eu vivo o ano inteiro”.

Pepita avisa: "eu existo o ano inteiro"
Pepita avisa: “eu existo o ano inteiro”

O mesmo assunto também pautou o vídeo de 9 minutos da maravilhosa artista Bia Ferreira, publicado no mês de maio. Neste vídeo ela responde à frequente cobrança para que participasse de lives “em prol das causas” (o que, como ela explica, já é 80% do trabalho que ela faz normalmente): “vocês estão perguntando se eu tenho o que comer na minha casa?”.

Porque, sim, ser LGBT e fazer arte sobre as realidades LGBTs faz com que a resposta a essa pergunta seja frequentemente um “não”, principalmente quando essa arte tem uma abordagem crítica. Como a própria Bia Ferreira explica detalhadamente em seu vídeo, a arte engajada politicamente não rende dinheiro, não atrai contratos publicitários. 

O resultado disso é: se Pepita só é buscada por marcas no mês do Orgulho LGBT (e que bom que pelo menos nesse momento ela seja e consiga ser paga pelo seu trabalho artístico), Bia Ferreira, artivista negra lésbica periférica, não é considerada pelos Burger Kings da vida sequer no mês da Consciência Negra.

Bia Ferreira:
Bia Ferreira: “eu não sou o tipo de artista que é contratada”

Essa arte está cercada.

E isso é política. O atual governo brasileiro persegue abertamente artistas LGBT, impedindo o financiamento de suas produções. Pense um minuto sobre essa política pública de perseguição e nas consequências dela, uma vez que o Estado é o maior financiador de cultura no país. 

Isso quer dizer que: 1) arte com temática LGBT corre risco de ser extinta, 2) artistas que fazem essa arte a partir de uma perspectiva crítica e politizada passam dificuldades materiais ainda mais severas, 3) quem quiser receber o investimento chancelado pelo Estado vai precisar “disfarçar” ou alterar drasticamente a temática e o alinhamento político.  E olha que isso é só um raciocínio rápido. Se a análise for mais detalhada, a gente vê que esse poço não tem fundo.

Outra face dessa perseguição acontece com a cartunista Laerte. Grande lenda do cartunismo brasileiro, Laerte se assumiu trans ao longo da última década. Mesmo se considerando excepcionalmente privilegiada por avaliar que não perdeu leitores devido à sua transição, os cartuns de Laerte que comentam o cenário político começaram a ser perseguidos pela primeira vez em sua carreira.

O interessante é que as dezenas de processos não são movidas contra os cartuns em que Laerte aborda a transgeneridade ou questões de sexualidade. Laerte tem sido processada quando comenta outros temas da política brasileira, como racismo, violência policial, ou mesmo políticas públicas elaboradas pelo governo

Você consegue imaginar o impacto prático dessas ações caso estivéssemos falando de uma cartunista trans negra da periferia em início de carreira, ganhando algum espaço graças à uma milagrosa viralização nas redes sociais?

Laerte con$egue segurar os ataques judiciais; artistas da periferia, não.
Laerte con$egue segurar os ataques judiciais; artistas da periferia, não.

De um lado, se corta a possibilidade de financiamento a projetos artísticos que falem sobre a vida das pessoas LGBTQI+. Do outro, qualquer arte politizada vinda dessas criadoras é ameaçada com uma rajada de processos, que impõe à vítima custos de defesa e um pesado desgaste emocional. 

É assim que aquele tipo de representação problemática e que pratica desserviços à causa se torna dominante, com o extermínio das possibilidades de existência de qualquer outro tipo de produção.  E não tem lista de Orgulho LGBT que conserte isso sozinha. A arte LGBT engajada custa caro.

Cobrar de uns para pagar outros. 

Por isso, amores, vamos cobrar, sim, mas com inteligência. É a cobrança que transformou o apoio velado de Anitta (que lucra horrores com o público LGBT) ao governo Bolsonaro em metralhadora de críticas (oportunistas, sim, mas isso é assunto pra outro papo). É a cobrança que constrange o silêncio ensurdecedor de Ivete Sangalo, ao ponto da diva baiana ter que falar alguma coisa quando seu público se manifesta contra o presidente e sua agenda política

Mas existem artistas que só por existir estão na linha de frente dessa luta, seja por falarem de realidades que são historicamente silenciadas, seja por usarem as armas que a vida lhes deu para ir pra cima de quem quer seu extermínio. 

O que essa honrada gente precisa não é de dedo na cara, mas reconhecimento e apoio para arcar com o alto custo dessa arte tão necessária e, por isso mesmo, tão perseguida. Essa é a tarefa de quem de fato quer apoiar a arte e o orgulho LGBT.

Como disse Pepita, “agora faça sua parte”. 

Bia Ferreira lançou em 2019 seu primeiro álbum, “Igreja Lesbiteriana, um Chamado”, disponível em todas as plataformas digitais (Spotify, Deezer, Apple Music,YouTube Music).

Pepita ainda não tem álbum lançado,mas colecionou singles próprios e feats ao longo dos últimos anos. O mais recente foi “Desafio”, com a rapper paulista Medrado. Você pode conferir em todas as plataformas digitais também (Spotify, Deezer, Apple Music, Youtube Music).

Laerte Coutinho é mestra dos cartuns e quadrinhos brasileiros e publica diariamente na Folha de São Paulo.

E não esqueça: tão importante quanto reconhecer e apoiar essas artistas é incentivar e comprar a arte engajada de artistas LGBT perto de você. Se a política pública é inimiga da arte, cabe ao público político ser defensor dela. 

Falando de algum lugar no universo - Júlio Sandes

Historiador, professor, comunista. E chato de galochas, essa parte também é muito importante.

2 Comentários
    1. Responder Júlio Sandes 29 de junho de 2020

      Eu que agradeço por terem noticiado a importante declaração de Pepita! Essa visibilidade nos faz refletir e ir além!

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