Ran é o épico dos épicos. Visualmente impressionante, e simbolicamente terrificante. A mais bela dança do caos. Vem conferir com a gente a grande obra de Akira Kurosawa.
Sinopse

Hidetora (Tatsuya Nakadai), o grande chefe do clã dos Ichimonjis, anuncia que pretende aposentar-se, abdicar de seu poder e dividir seus bens entre os três filhos. A notícia os lança em uma forte disputa, que abala o pai e enfraquece o feudo e o legado da família.
Uma grande produção

A ideia seminal para realização dessa obra é de meados dos anos 70, quando Kurosawa é inspirado por uma passagem das lendas de Mōri Motonari, onde este cria uma metáfora com três flechas para ensinar a seus filhos sobre união. Mas Kurosawa queria justamente subverter a lógica dessa passagem, e colocar os três filhos em conflito contra o pai. E em Ran ele faz exatamente isso.
Partindo dessa passagem da lenda de Motonari, Kurosawa encontra em Rei Lear, de Shakespeare, a trama ideal para desenvolver o trágico conflito. Em essência, Ran é uma adaptação da peça do dramaturgo inglês.
Em perspectiva, Ran é uma das maiores produções da história do cinema. Na época foi o filme japonês mais caro já realizado, com custo de $11 milhões. Naquele momento esse era um orçamento tão grande que o financiamento do filme veio de fora. Ran foi possível graças a parceria de Kurosawa com a produtora francesa Greenwich Film.

Foram quase 10 anos de produção, desde a ideia até o lançamento em 1985. Kurosawa pintou a mão storyboards com as principais cenas do filme durante anos, e essas pinturas por si só são muito interessantes.
Quase todo o filme foi filmado nas montanha e planícies do Monte Aso, que é o maior vulcão ativo do Japão. Vale destacar aqui que essas locações são de uma beleza estonteante, principalmente nas primeiras cenas do filme durante a caçada de javali onde os cavaleiros cavalgam pelas montanhas. Além dessa locação, o filme fez uso de dois dos castelos mais célebres do país, o Kumamoto e Himeji. Um terceiro castelo ainda foi construído para a grande cena de cerco onde o mesmo seria destruído. Não foram usadas maquetes, o castelo de fato foi construído em tamanho real.
Alguns números são relevantes para termos noção da escala dessa produção. Foram utilizadas 1400 armaduras e uniformes costuradas a mão, para as cenas de batalha, e utilizados 200 cavalos.
As cores de Ran

Curioso pensar que um cineasta que produziu maior parte de sua filmografia em preto e branco se tornou, com poucas obras, um dos mestres no uso das cores. Aqui as cores fazem parte da narrativa, de forma prática e simbólica, e constroem um mundo terrivelmente belo.
Cada um dos três filhos de Hidetora é caracterizado e representado por uma cor. Taro (Akira Terao), o filho mais velho veste amarelo, Jiro (Jinpachi Nezu), filho do meio, veste vermelho, e Saburo (Daisuke Ryû), o mais jovem, veste azul. Hidetora por sua vez, veste o branco, a junção de todas as cores. Esse elemento metafórico de união é reforçado pela alegoria das flechas, na qual o pai dá a cada um dos filhos uma flecha e pede que as quebrem. Os filhos o fazem, em seguida Hidetora junta três flechas e pede que quebrem novamente. De início os filhos não conseguem quebrar as três peças juntas, no que seu pai lhe dá a lição de que juntos são mais fortes, tal qual as flechas. Mas logo o filho mais novo, usando o joelho, quebras as três flechas, contrariando o pai e evidenciando que tal união pode ser facilmente destruída.
Além disso devemos considerar o uso simbólico das cores, onde o amarelo representa riqueza, fome, desejo, e na cultura japonesa também está ligado a coragem. O vermelho a paixão e violência, e o azul a tranquilidade e pureza. Essa distribuição simbólica das cores vai refletir também a construção dos personagens.

Para além da dimensão simbólica, as cores aqui também são empregadas com propósito prático: A distinção dos exércitos durante as batalhas. É bem mais fácil distinguir quem é quem no meio de todo caos criado por Kurosawa.
A mais bela dança do caos

Grande parte da história contada aqui é sobre um homem que conquistou riqueza, poder e respeito a custo de muito sangue e destruição. Acompanhamos esse homem em desgraça, perdendo tudo que possuiu e amou. É uma história de destruição. Essa é a primeira camada de caos dessa narrativa. Hidetora perdendo não só suas posses mas também a sanidade. A transformação pessoal do personagem é muito impactante. As atuações nesse filme são teatrais, muito físicas, quase caricatas, mas no caso do protagonista, para além da atuação, grande parte de sua transformação vem da maquiagem, que dá conta de sua degradação. Toda a confusão mental do personagem está estampado em seu rosto. Hidetora é a mais pura expressão do caos. Mas o título desse texto refere-se a uma cena específica, a mais bela dança do caos é o cerco a um castelo. É a cena mais grandiosa e épica de Ran. São milhares de soldados, boa parte deles montados em cavalos, correndo de um lado para o outro, sangue e fogo e destruição por toda parte. E nesse ponto Kurosawa novamente faz um uso brilhante das cores. O cenário é quase todo em tons terrosos, escuros. O vermelho do sangue é algo que pulsa visualmente na tela. Todo o frenesi posto em tela nessa cena é brilhantemente orquestrado, e milimetricamente composto por Kurosawa e seus cinematógrafos, Shôji Ueda, Takao Saito e Asakazu Nakai.

Essa cena se torna ainda mais impactante pois foi montada sem o som ambiente. Ouvimos apenas uma trilha lúgubre enquanto contemplamos uma das mais belas e terrificantes construções alegóricas do inferno. Da forma como foi filmada a batalha se torna uma dança.
Ainda sobre essa cena é importante mencionar que o fato dela ter sido realizada com milhares de figurantes, centenas de cavalos, em castelo construído em tamanho real, a tornam perene. Por mais que obras como Senhor dos Anéis, ou Game of Thrones, por exemplo, tenham cenas de batalha em grande escala, épicas, nenhuma delas é comparável a o que temos aqui. Nenhum efeito visual, construído digitalmente, por melhor e mais crível que seja, pode alcançar esse tipo de peso e realidade.
Um Kurosawa niilista

Rashomon, de 1950, foi o primeiro filme de Kurosawa a ganhar atenção mundial. Inclusive gravamos um podcast Elementar sobre. Fato é que Rashomon e Ran, possivelmente, são as duas obras mais significativas e aclamadas de Kurosawa. São símbolos de momentos muito diferentes na carreira e vida do diretor.
As duas obras têm um elemento temático em comum: O mal no mundo. Omal nas pessoas, e o que fazemos uns com os outros por sentimentos perversos como inveja, ganância e raiva. Porém as duas obras são muito distintas. Os finais de ambas são muito fortes e vão em sentidos opostos. Em Rashomon o final é totalmente esperançoso, com uma luz sobre a humanidade, uma mensagem positiva e edificante. O final de Ran é aterrador. Em termos práticos temos um homem cego na beira de um penhasco, mas de forma simbólica, considerando toda a trama do filme, essa é uma mensagem muito clara de que estamos perdidos, sem rumo algum, desolados em um mundo cruel e sem sentido. Se os deuses existem fomos abandonados por eles.
Vale registrar que a esposa de Kurosawa, Yōko Yaguchi, faleceu durante as filmagens. Faz sentido toda a desesperança e desilusão posta em Ran. Além disso são 35 anos de diferença entre as duas obras citadas neste bloco, é tempo mais do que suficiente para qualquer um perder a fé na humanidade. Niilismo nunca antes fez tanto sentido.
Por fim

Ran é a grande obra prima da carreira de Akira Kurosawa, tida pelo mesmo como sua melhor realização. É um dos filmes mais grandiosos e visualmente impactantes já feitos. É a mais bela dança do caos. Encanta pelas cores e pelas coreografias de batalha. Mas também é carregado de uma desesperança niilista que transborda pela tela. Muito se diz sobre Hidetora ser um reflexo alegórico do próprio Kurosawa em fim de carreira, como se o diretor se projetasse no personagem. Se assim o for, é uma auto-representação cruel, mas ainda assim é lírica e encantadora.
Ran é uma das grandes obras do cinema. Nela podemos contemplar a genialidade de um dos grandes artistas que já existiram. É um filme que merece ser visto e perpetuado.
Curiosidade:
Ran foi indicado em 4 categorias no Oscar de 1986:
Figurino (Venceu com Emi Wada)
Direção
Cinematografia
Direção de arte
Não foi indicado na categoria de filme estrangeiro pois a comissão japonesa considerou a produção francesa, e a comissão francesa entendeu que era um filme japonês.
[…] com filmes do pioneiro Akira Kurosawa, como os famosos: Rashomon e Ran (que tem resenha aqui no site). Mas o grande diferencial Japonês, ao longo do tempo, tá mesmo é na cultura e inspiração […]