Hoje rolou resenha no estágio porque tentei fazer com que os colegas pegassem a marmita pra mim, enquanto eu não chegava, uma vez que estava na cabine. Ninguém me respondeu a tempo, almocei na rua, e a galera achou que eu tava chateado por ter dito que “não precisava mais”. Não estou chateado, e esse texto de hoje é em homenagem à eles (e tomara que meu chefe não leia).
O filme de hoje foi Sicário: Dia do Soldado (Sicario: Day of the Soldado, 2018).
SINOPSE
Matt Graver (Josh Brolin) continua em seu papel de agente militar / de inteligência dos Estados Unidos. Nesse caso, ele precisa iniciar uma guerra entre os cartéis mexicanos, e vai precisar da ajuda do (agora já conhecido) sicário Alejandro (Benicio Del Toro).
MAS ANTES…
Pequeno comentário sobre o filme anterior, Sicario: Terra de Ninguém (Sicario, 2015): é um filme sobre política. Eu sei, parece muito um filme de ação puro. Mas não é. É um filme que diz “olha o que as pessoas lá fora, no mundo real, tem que fazer”.“Olha até onde os Estados Unidos precisam ir para manter o seu bem estar”. E se você se permite ir um pouco mais longe, e ver o filme pelos olhos não do Matt, mas de Kate Macer (Emily Blunt), vai notar que “espera, onde estão os direitos e leis que dizemos respeitar? É esse o país que queremos?”. “Vá para uma cidade onde o Estado de Direito ainda funcione. Essa se tornou uma terra de lobos, e você não é um lobo”, é o que Alejandro diz para Kate no final do primeiro filme. Mas queremos viver num mundo de lobos? Queremos viver acreditando que o mundo é uma disputa entre lobos e ovelhas, ou lobos e outros animais? Quem disse que somos OS lobos? E quem garante que, quando essas ações contra “o mal” acabarem, as coisas realmente vão melhorar (a reflexão da última cena)?
Para finalizar, e fazendo uma comparação que pode ser tomada como esdrúxula (e é mesmo, um pouco), Sicário me lembra muito Team America: Detonando o Mundo, ou no título original, Team America: World Police. Porque é o que o governo americano, utilizando a CIA, com ajuda de Alejandro, e com aval (de certa forma ignorante) do FBI está fazendo, interferindo no mundo inteiro de acordo com os próprios interesses, como se assim estivesse lutando contra “o mal”.
Isso posto, vamos para os
COMENTÁRIOS
Seguindo a linha do anterior, vemos mais uma vez o governo estadunidense interferindo na política externa para justificar ações políticas futuras. Voltamos nossas atenções aos cartéis mexicanos, e mais uma vez o sicário Alejandro aparece.
Tem uma coisa que incomoda bastante nesse filme: o fato de ele existir. A sensação que temos, no anterior, é que roteirista e diretor queriam não só nos dar um filme de ação realista (no que ele é muito caprichado), mas sim uma reflexão sobre a forma como os Estados Unidos atuam e influenciam outras nações soberanas ao redor do planeta. E a história se encerra. Cabe estudo de minha parte [1], mas a sensação com esse, é que o estúdio gostou do sucesso e viu nele uma potencial franquia, que não seria a proposta inicial. Então várias adaptações precisam ser feitas para que sua existência se justifique. São coisas que o roteiro te dá e você é obrigado a aceitar, por exemplo a relação entre terroristas islâmicos e piratas subsaarianos, indo parar nos cartéis mexicanos. Ou então, a motivação de Alejandro. Não quer dizer que sejam mal escritos, mas fica o gosto de “vocês inventaram isso aqui, né?”.
Outras coisas causam estranheza. Por exemplo, nós já sabemos muito bem a forma como os protagonistas Matt e Alejandro lidam com o viver e o morrer. E algumas ações deles, nesse filme, fazem com que a gente se pergunte “ué, por que fazer isso agora, se antes você não faria?”. É uma estranheza que reforça minha opinião de “o estúdio mandou a gente fez”. E é difícil saber de quem é a “culpa”, pois o diretor deixa de ser o Denis Villeneuve (Blade Runner 2049 (2017) e A Chegada (2016)) para ser Stefano Sollima, mas o roteiro ainda é de Taylor Sheridan.
Falando nisso, e apesar disso, o filme consegue te ambientar da mesma forma que o primeiro fez. Roger Deakins sai da direção de fotografia para dar lugar a Dariusz Wolski, que não deixa dever em nada. Sem deixar de falar da trilha sonora. Nos créditos finais, o filme presta homenagem póstuma ao compositor Jóhann Jóhannsson, e o novo compositor, Hildur Guðnadóttir, faz uma bela transposição para a nova peça.
Por fim, e apesar de fazer sentido que não esteja lá, faz muita falta uma personagem que seja nosso lastro moral, que mostre como as ações dos personagens ao seu redor são moralmente questionáveis, em certos momentos até mesmo ilegais. É muito fácil que o calor da ação te faça esquecer de tais coisas, como aqueles homens da lei e da ordem de certa forma também se esqueceram. E a Kate era fundamental para isso. Porém, nesse filme não temos nada parecido com isso, mesmo que a pequena Isabela Moner esteja excelente em tela.
FINALIZANDO
O novo filme é, portanto, uma tentativa de trazer de volta os aspectos que tornaram o primeiro Sicario um filme premiado, no que ele tem sucesso, mas com um enredo que não está a altura do anterior. Recomendo assistir, é um filme muito bom, mas só o primeiro já tava de bom tamanho.
Quero muito que essa “era de franquias” acabe!
É isso pessoal, comentem suas impressões aqui embaixo, ou no nosso grupo de Facebook. Abraços, e até a próxima!
P.S. (Pode Spoiler):
Velho, do primeiro pro segundo filme não tem nenhum cliffhanger. O filme começa e se fecha. Temos essa sequência, e tudo bem. Porque ela não se fecha completamente? Porque fazer a zorra de um cliffhanger merda que nem esse? pqp.
[1] O orçamento foi estimado em 30 milhões de dólares, e a bilheteria foi de 84 milhões. Recebeu também 3 indicações ao Oscar: Melhor Edição de Som, Melhor Trilha Sonora e Melhor Fotografia. Fora que o filme começou a ser produzido desde o ano posterior ao seu lançamento, em 2016.



