Uncut Gems – Uma derrocada em meio ao caos rumo a autodestruição

Uncut Gems – Uma derrocada em meio ao caos rumo a autodestruição

A primeira vez que ouvi falar desse filme foi em uma reportagem que especulava uma possível indicação de Sandler ao Oscar. Isso logo depois de o filme ser exibido e recebido com muito louvor no Festival de Toronto do ano passado. É uma notícia que chama muita atenção, pois Sandler, embora amado por grande parte do público, não é um ator conhecido por grandes atuações, bem pelo contrário. Ele chega  ser tema de vários memes, que brincam com a forma como seus filmes são massacrados pela crítica, e adorados por grande parte do público.
Mas e aí, será que a atuação de Sandler em Uncut Gems é tudo isso mesmo? vale um Oscar? Vamos tentar discutir isso aqui.

Sinopse

Nova York, primavera de 2012. Howard Ratner (Adam Sandler) é o dono de uma loja de jóias, que está repleto de dívidas. Sua grande chance em quitar a situação é através da venda de uma pedra não lapidada enviada diretamente da Etiópia, cheia de minerais preciosos. Inicialmente Howard a oferece ao astro da NBA Kevin Garnett, um de seus clientes assíduos, mas depois resolve que conseguirá faturar mais caso ela vá a leilão. Para tanto, precisa driblar seus cobradores e a própria confusão que cria a partir de suas constantes mudanças.

Safdie Brothers

Uncut Gems Directors Benny and Josh Safdie, actor Adam Sandler Credit: Julia Cervantes/A24

Josh e Benny Safdie atraíram os holofotes do mundo cinematográfico em 2017, com o excelente Good Time, que mostra a história de um bandido correndo contra o tempo, numa Nova York caótica, para livrar o irmão doente da cadeia. O cinema desses caras é muito crú, sem muita potência estética e apelo visual. A grande sacada desses realizadores está na forma como contam uma história. O roteiro é muito preciso, engenhoso e surpreendente, nunca se sabe ao certo o que vem a seguir. Os acontecimento se desencadeiam em torno do protagonista quase que de forma acidental, mas sempre fazem sentido dentro da narrativa. 

Poster Good Time, 2017

Em Uncut Gems eles voltam a NY, dessa vez pra contar a história de um joalheiro, que é um fanático por basquete e apostador desenfreado. Aqui, tal como em Good Time, acompanhamos um protagonista desprezível, que tenta resolver um conflito no meio do caos que se cria a seu redor. A trilha sonora é outro elemento que as duas obras compartilham, é carregada de sintetizadores, que remetem a os filmes dos anos 80. Grande diferença é que o filme de 2017 é bem mais dramático, e existe um senso de urgência que permeia a história do início ao fim, não existe respiro. Aqui o filme vai mais para um suspense com doses pesadas e pontuais de humor. 

Adam Sandler

Sandler já mostrou em outras oportunidades que é um bom ator, mesmo em seus filmes de comédia. Aqui, de fato, ele está muito bem. É uma atuação muito linear, não há nenhum pico emocional ou uma cena onde ele explode com todo seu potencial dramático. O grande mérito dessa atuação está em construir um personagem nojento, escroto e cínico, mas ainda assim muito carismático, humano e cativante. Howard é um cara canastrão, malandro, sempre tentando tirar vantagem de tudo. Ele cria um cosmo de confusão e desorganização em seu redor, tudo parece confuso e desordenado, e essa é a essência do personagem. Quanto mais ele tenta ganhar, mais ele perde, e mais se afunda, seja nos negócios ou em suas relações pessoais. E é surpreendente ver isso, pois ele ganha muito dinheiro com seu negócio, tem uma vida cheia de luxo e conforto, tem uma família bonita que, aparentemente, lhe ama, e tem uma amante maravilhosa (não julguem, é a realidade do filme), e mesmo assim ele parece não se importar com nada disso. A prioridade de sua vida é apostar. E nesse ponto Sandler realmente cria algo especial. Nos momentos em que Howard está apostando, o personagem se transforma, é como se fosse outra pessoa, ele parece brilhar, ganha uma confiança poderosíssima, e sua excitação é algo praticamente sexual. Particularmente, não creio que essa seja a melhor atuação do Sandler. De fato não vi todos seus filmes, mas em termos de drama, prefiro o que ele faz em The Meyerowitz Stories, onde seu personagem é muito melancólico e guarda uma mágoa contida, que vai escapando aos poucos até um momento de explosão. Mas é justo todo o hype que se criou em torno de sua atuação em Uncut Gems, pois ela é de fato muito boa, e será justo suas indicações a prêmios. Mas, tendo em vista uma possível indicação ao Oscar, e seus possíveis concorrentes, como Adam Driver, Joaquin Phoenix e Robert De Niro, não creio que ele deva vencer. E isso não é demérito algum, Oscar é divertido, mas em essência não é confiável (vide Green Book melhor filme no ano passado).

Um final Irmãos Coen

Complexo falar desse final sem entregar muitas informações. Mas se você conhece o cinema dos Coen, já sabe o que pode esperar. Esse filme não é pesado, mas é tenso, com pitadas de humor que vão aliviando o clima ao longo da história. Mas o final é surpreendente e impactante. Eu não esperava aquilo, mas o filme tem de ensinar algo, então se justifica.
Uncut Gems é um filmaço, muito mais pela direção e roteiro do que pela atuação de Sandler, que não deixa de ser muito boa. Além disso é uma bela e triste reflexão sobre como vício e ambição podem destruir uma pessoa. 

Uncut Gems entreia em 31/01 na Netflix.




Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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