Bom, vamo lá. Esse texto acho que não vai ter muita pesquisa.
Mês que vem, novembro, nós pretendemos fazer uma série de textos e podcasts sobre um tema específico. Qual tema? Ah, vocês vão ver, heheheh. Mas o importante aqui é, vários membros se sentiram com dificuldades, sem saber exatamente sobre o que falar. Até por não terem facilidade com o assunto. Eu achei isso estranho, até me lembrar que, em junho desse ano, fizemos o mês LGBTQ+ do site, com uma série de posts que atendiam a esse tema. E eu tive dificuldade semelhante à dos meus colegas. Eu consegui escrever sobre Moonlight, que é até hoje um dos meus melhores textos, e fico orgulhoso e grato ao mesmo tempo. Mas isso fez com que eu me perguntasse: por que temos tanta relutância em ver coisas / ouvir histórias que não somos o público alvo?
A resposta é meio óbvia, né? Ela não foi feita pra você, acabou. Fim de texto, sobe os créditos. Só que, não sei vocês, eu não acho suficiente. Porque veja, focar demais em públicos alvo forma nichos e grupos fechados. O grupo dos fãs de Star Wars, o grupo dos fãs de Steven Universe, o grupo dos fãs de… de arrocha, sei lá. Os nichos vão sendo construídos e, sem cuidado, vão se fechando. Mas deixa eu voltar um pouco.

Sobre contar histórias
Contar histórias tem um papel fundamental na criação de indivíduos, e na construção de uma sociedade. Isso é ponto pacifico? Talvez não seja, então vamos lá. Contar histórias perpassa não só um conto fechado. A história da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, não nos diz apenas sobre uma garota com graves problemas de percepção visual. Chapeuzinho Vermelho nos diz que devemos ser obedientes aos nossos pais, ou vamos nos ferrar; não devemos confiar em estranhos; precisamos tomar muito cuidado quando andarmos em lugares pouco movimentados; devemos ficar atentos a reconhecer pessoas (sério? Era um lobo!); que devemos usar óculos. Por aí vai.

Na esteira, é claro, acabamos nos acostumando com alguns comportamentos também: é bem possível que, se deu tudo errado na sua vida, coisas boas venham a acontecer depois: o lenhador venha te salvar, ou a bruxa vai cair no forno, ou o príncipe vai te fazer feliz etc. Talvez as histórias devessem ter finais não felizes com mais frequência, ficariam mais coerentes com o mundo real…
Normalização nem sempre é boa
Só que nem só coisas boas se aprende com essas histórias. Na Princesa e a Ervilha, por exemplo, uma lição que fica é que para uma garota ser uma verdadeira princesa, ela precisa ser extremamente frágil. Ou que sei lá, na Cigarra e a Formiga, tá tudo bem deixar um músico morrer de fome porque ele não trabalhou na lavoura que nem você. Repare que essas coisas não são ditas na história. Mas são informações que são normalizadas ao serem ouvidas. Na da princesa, a ideia era mostrar delicadeza. Na cigarra e a formiga, a ideia é mostrar que o trabalho duro recompensa. Mas… essas coisas tão lá.

O que eu quero deixar claro aqui, é que primeiro, histórias são mais do que simples narrativas de ponto A ao B, informações ocultas são trazidas. Segundo que, essas informações ocultas nos ensinam padrões de normalidade (você já percebeu como é comum para nós, brasileiros, a ideia de castelos medievais? A gente não viveu o medievo europeu no Brasil!). E por fim, são esses padrões que nos habituam a viver em sociedade. Sabemos que é errado um pai abandonar um filho não só porque isso é um fato, mas porque histórias como João e Maria mostraram, pra gente, como isso é terrível.
Não precisa ser “historinha”
Mitologia educa jovens e adultos
Mas histórias não precisam ser só contos de fadas, nem necessariamente infantis. Um bom exemplo é a religião. Através de histórias se passam vários preceitos religiosos, ou até mesmo de histórias dentro de histórias. Por exemplo, Jesus Cristo (que já é uma narrativa por si só) diversas vezes nos dá ensinamentos através de parábolas. Então os cristãos podem aprender como se portar tanto com seus ensinamentos diretos (Marcos 10:25), como pelas narrativas que ele conta (Mateus 18:12-14). Isso não quer dizer que os cristãos vão seguir a risca seus ensinamentos (afinal né, julgar mulher adúltera é o que mais tem). Mas passa uma régua moral e, um padrão de normalidade também: “Deus me perdoe por falar mal da minha vizinha, mas ela…”. As pessoas sabem o que é certo e o que é errado a partir dali.

Mas foi legal falar sobre religião, porque isso nos leva a pensar: e outras religiões? E quem nunca ouviu os ensinamentos de Jesus? Vão ser pessoas ruins? Não, mas vão ter paradigmas sociais diferentes. A gente pode pensar num exemplo extremo: para os povos nórdicos, a vingança, a pilhagem, e a guerra eram muito bem vistos. Para os cristãos, nem tanto (quem já leu Cornwell tá acostumado com esse dilema).
Cosmovisões diferentes
Mas dá pra ser um pouco menos extremo. Por exemplo, em 70:16 da entrevista que o Silvio Almeida deu ao podcast Benzina, ele demonstra como a cosmovisão de religiões de matrizes africanas (principalmente as que influenciaram as religiões afro brasileiras, é claro) estabelecem uma harmonia entre seres (e energias, se quiser por assim) masculinas e femininas. Coisa que o cristianismo, uma vez que é altamente patriarcal, não vai abarcar. Eu vou pedir que vocês ouçam a entrevista, é muito interessante.
Com isso, o que eu quero estabelecer é que narrativas criam imaginário, o imaginário se expressa em comportamentos sociais. Essas narrativas não precisam só ser direcionadas ao público infantil, e ainda assim tem esse poder. Ficou claro aqui? Eu quero passar pra outra etapa já.
Grupos são formados por histórias
A gente falou de histórias mais gerais, aquelas que são contadas para todo mundo, ou para uma grande parcela da população. Só que existem histórias que são contadas para grupos menores ou subgrupos, e ainda assim possuem um caráter educativo / informativo. Por exemplo, é comum quando se chega num trabalho novo, ou quando você é novo num grupo de amigos, que as pessoas te contem histórias sobre o passado. “Lembra quando o Zeca apagou tudo, naquele dia?” Nesses momentos você aprende sobre pessoas, sobre coisas que aconteceram que foram positivas ou negativas, aprende o que é certo ou errado naquele ambiente, aprende o que as pessoas consideram engraçado ou não – inclusive, dica pra qualquer pessoa chegando em um novo espaço, preste atenção nas conversas. Mesmo que você não queira fazer amizades.
Pra deixar um pouco mais simples, existem histórias para meninos e histórias para meninas, por exemplo. As lendas com princesas costumam ser para meninas. As lendas com cavaleiros, para meninos. Papéis de gênero são ensinados e repassados para crianças há gerações, desde muito novos, e a gente ainda se pergunta porque o machismo e a misoginia ainda existem nos nossos tempos. Não existe novidade nisso. Trazendo Silvio Almeida de novo, educação é uma das formas mais fortes de se reproduzir problemas sociais.
Nem tudo é ruim…!
Apesar de eu ter usado o último exemplo de uso de narrativas de forma educativa / normalizante (?) como uma coisa ruim, não necessariamente é. Por exemplo, o hip-hop repassa, através das suas várias expressões (mas vou focar no rap e no slam), informações para que jovens negros e periféricos como as estruturas sociais são nocivas, formas de se defender de instituições, empoderamento individual e de grupo, e tudo o mais.
Ou seja, narrativas são ferramentas. Se vão ser boas ou ruins, vai depender do uso e, mais importante, do grupo ao qual aquela narrativa está sendo parte constituinte.
Legal que falamos de hip hop, porque já leva a gente a outro ponto, que são os nichos.
Grupos fechados, histórias próprias
Nunca vou esquecer uma vez que peguei ônibus, na minha adolescência. Era tarde da noite já, e tinham dois garotos ouvindo Racionais muito alto. Eu continuei no ônibus, mas fiquei com medo. “Música de bandido”. Anos depois eu voltei a ouvir Racionais, e descobri uma das coisas mais geniais que esse país já gerou.
Mas eu reconhecia, naquela música que eu mal entendia a letra, um grupo que não era o meu. E que, pior, eu queria me afastar. Nós, como indivíduos, sabemos reconhecer o que pertence ou não ao grupo que fazemos parte. E sabemos reconhecer, também, o que faz parte de outro grupo do qual a gente não quer fazer parte. E pode ser que, beleza, na real você nem tenha nada contra. Mas também, nada exatamente a favor. Nem vontade, nem curiosidade de se aproximar. Outro exemplo pessoal que posso dar é que, uma vez que não tenho muita afeição ao cristianismo, eu não costumo ter muita afinidade com narrativas que venham dessa religião (por mais que eu já tenha usado alguns exemplos bíblicos nesse texto).
Eu acho que coloquei essa parte só pra pagar de ateuzão da internet… mas eu vou manter, tem problema não.
E qual o problema disso? Eu vou ter que ir um pouco pra frente, pra que a gente possa amarrar esse texto que já tá bem grande.
Empatia e Alteridade
Empatia
Existe uma pesquisa que muito provavelmente você já viu nas xoxomidias por aí, que mostra que pessoas ricas prestam menos atenção à pessoas pobres (se você é classe média, pode parar de sorrir. Isso é sobre você, também). Pois bem, no podcast Naruhodo, o Altay de Souza explica que, para além de uma “maldade” dos ricos, isso se deve ao fato de que nós, humanos, construímos nossos padrões a partir das nossas vivências. E pessoas ricas são criadas em ambientes em que elas nunca experienciam as mazelas decorrentes da pobreza. Escapar desse padrão envolve força de vontade, dedicação etc.
Mas uma das formas de resolver essa “discrepância empática” é, como ele diz por volta de 0:20:00 do programa,
[…] Dar acesso a mais pessoas a condições em que o maior número de pessoas possa vivenciar, porque aí você troca experiência.
Altay de Souza, no Naruhodo #061
Vamo repetir, uma das formas de aumentar essa empatia entre grupos, seria fazer com que eles conseguissem viver experiências semelhantes! Por exemplo, você já teve num grupo em que todo mundo tinha feito alguma coisa (sei lá, ir pra Disney), e você era o único que não tinha feito o mesmo, possivelmente por falta de grana? É uma merda, né? E se você (e mais pessoas) tivessem a oportunidade de realizar a mesma coisa? Você conseguiria conversar melhor com esse grupo, não é mesmo? Eu lembro quando eu era vir… Não, já chega de exemplos pessoais aqui.
O lance é: se pudéssemos viver mais experiências comuns, as pessoas teriam menos estranhamentos entre si. Extrapolem essas possibilidades na sua mente.
Alteridade
Posteriormente, em outro episódio do mesmo programa, aprendemos que existe diferença entre empatia e alteridade.
Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, […] eu me coloco no lugar do outro naquilo que ele tá pensando, ou que ele tá sentindo. […] Empatia é um constructo do ponto de vista individual. Sociedades não têm empatia […], nem grupos. São indivíduos. […] Isso acontece só pra emoções simples. […] O que você tem que estimular nas pessoas, nas empresas, na sociedade é a alteridade. Qual a diferença? […] Indivíduos têm empatia, sociedades têm alteridade. O que é alteridade? […] imagina que eu conheci uma moça que está grávida. Eu NUNCA vou saber o que é ser grávida. NUNCA. […] Eu nunca vou saber a experiência fisiológica de estar gravida. Eu não tenho como ter empatia. Não tenho como me colocar no estado do outro!
[…] O que seria um comportamento de alteridade? […] Eu vou conhecer o mundo de uma grávida. [..] O primeiro ponto é eu me esvaziar disso. Eu não sei o que é uma grávida, eu tenho que aceitar: eu não sei, eu não entendo a realidade, eu não vou entender. […] A relação deixa de ser vertical, e passa a ser horizontal. […] Eu viro pruma grávida e pergunto “oi, o que é ser grávida? Me explica, porque eu não sei.” […] Aí eu posso falar com várias grávidas, e ter ideia dos diferentes significados de que é ser grávida. […] Quer dizer que eu vou saber o que é ser grávida? Não, quer dizer que eu tenho alteridade sobre o lugar do outro.
Altay de Souza, no Naruhodo #215
Acho que agora já dá pra amarrar as ideias.
Democratização ao acesso
Narrativas servem para educar indivíduos e normalizar comportamentos de um grupo. Vimos que isso pode fazer com que o grupo se feche, porém o produto cultural (música, filme, livro, pintura) pode ser experienciado mesmo que você não faça parte daquele grupo. Vimos também que o acesso a diversas experiências pode diminuir a diferença entre indivíduos, e por fim, que para se estimular a alteridade, você precisa, primeiro, entender que não vai saber nunca o que outros grupos vivenciam, e a partir daí ter um processo de busca de conhecimento para o entendimento – você nunca vai ser daquele grupo, mas você pode começar a entender como ele funciona. Já temos quase tudo aqui.
Temos uma coisa a mais: no século passado, ocorreu a criação e a expansão de uma indústria cultural muito forte, que propagou ideias e valores para diversas salas de cinema ao redor do mundo. Ainda mais, com o rádio e, depois, com a tv, essas informações foram projetadas dentro dos lares. Agora nós já acessamos esse mundaréu de coisas individualmente, com celulares. Claro, pra quem tem acesso. Tudo o que eu to falando é pra quem tem acesso. Precisamos democratizar o acesso à experiências, lembram?
Só faltava uma coisa, que as histórias não fossem sempre uma repetição de valores que reforçam o status quo. Narrativas que falem também sobre outros grupos, sobre outros pontos de vistas. Sabe aquela ladainha do “homem branco hétero cis”? Essa ladainha é REAL, muita coisa é produzida a partir da vivência desse tipo de indivíduo. É importante que se diga, produções deviantes sempre existiram. Mas talvez só hoje em dia elas sejam geradas num volume tal que pode vir a de fato combater a grande indústria. E a chegar em muito mais gente. Para além dos seus nichos.

Narrativas como ferramentas de aprendizado
Mas pra que? Foda-se, as pessoas “padrãozinho” já acessam um monte de coisas, pra que serve elas agora poderem consumir obras que nunca foi do interesse delas?
Na verdade, para que essas diferenças entre grupos diminua. Lembre, para que se desenvolva a alteridade, é importante conseguir ouvir narrativas advindas de indivíduos com particularidades diferentes das minhas. Só que isso é muito difícil, porque envolveria sair entrevistando um monte de gente… Mas você pode, se você não é LGBTQ+, por exemplo, assistir filmes para esse público, ouvir músicas destinadas a esse público, ler literatura gerada por esse público. E se por um lado, boa parte dessas obras não era beeem gerada por pessoas LGBTQ+, mas sim por grandes estúdios que estavam querendo só abocanhar essa parcela de mercado (pink money), por outro lado vem crescendo a quantidade de produções geradas por essas pessoas – ou até mesmo, criadas com mais cuidado e de forma mais respeitosa. Se você não é do espectro, você não vai se tornar um membro, mas vai te dar novas perspectivas sobre.
É claro: não é completo, nem suficiente. Você ainda precisa conhecer pessoas, trocar ideias, entender os dilemas e as alegrias. Mas é uma forma.
Então é por isso que eu acho que não só você (leitor) poderia consumir mais coisas das quais você não é o público alvo. Eu acho que você DEVERIA. Procure filmes sobre vivências negras, sobre vivências de mulheres, sobre vivências LGBTQ+, sobre vivências dos povos originários. Saiam das suas bolhas, saiam dos seus lugares comuns. Vocês podem voltar depois, sei lá. Mas se permitam viver essas experiências, nem que seja a partir de filmes e novelas, para que sua visão de mundo se expanda. E você também, por consequencia.

“Você podia ter falado isso tudo no começo, né?”
Ah, podia.
Venho experimentando sair da minha zona de conforto nos últimos meses, tem sido um processo lento ainda, mas com grandes promessas de um futuro mais diverso e expansivo. Esse texto foi uma importante força motivadora para continuar na estrada. Valeu, Ferna.
[…] você acompanha o site e leu o texto “Nunca nem vi”, ou Por que consumir histórias que não sou público alvo?, então vai lembrar que nele se comenta que narrativas são uma ótima forma de conhecer novos […]