Doutor Sono – Como fazer continuação de um clássico?

Doutor Sono – Como fazer continuação de um clássico?

O Iluminado, quando foi lançado em 1980, gerou discussões e separou os espectadores em dois times: os defensores da adaptação, encabeçados pelo próprio diretor,  Stanley Kubrick. E os que detestaram, encabeçados pelo próprio autor do livro inspirador, Stephen King. Eu to inventando isso, nem sei se deu mesmo uma treta real oficial. Mas a divisão existe. Será que Mike Flanagan conseguirá, em Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019) unir todas as tribos, como o Norvana?

SINOPSE

Anos após os acontecimentos de O Iluminado, Danny é um adulto mergulhado em confusões, álcool e drogas. Buscando um novo começo, se muda. Mas os problemas seguem aqueles que tem o Brilho

TIRANDO OS CAIXOTES NA SALA

Quando se trata de uma continuação de um filme tão icônico e antigo, feito por uma pessoa tão ilustre (por mais que problemática), todos os pés vão para trás (biridin). E não importa se o diretor tem experiência, ainda mais no gênero de horror. Você vai ficar com medo. Não sem razão. Outra franquia estrelada por  Ewan McGregor, Star Wars, tá aí pra mostrar que as vezes é melhor só deixar o passado quieto. 

O que podemos já adiantar é: você não precisa ter medo de Doutor Sono. É uma ótima continuação, muito bem produzida, daquelas que você sente a dedicação. MAS É CLARO QUE, se você for purista, nada do que eu disser vai te convencer de que vale a pena. Então eu nem vou tentar, só vou continuar falando.

SEGUINDO EM FRENTE

Os livros originais foram publicados em 1977 e 1998, respectivamente. De 98 para 2019 são 21 anos de diferença (meu deus…), e de 80 para cá, 49. Doutor Sono se adequa à essas diferenças temporais, trazendo elementos contemporâneos (celulares, computadores). Isso quando a linha temporal equivale ao nosso tempo, pois somos apresentados a 3 momentos: Danny criança, Danny jovem adulto, e Dan Adulto maduro. 

Isso implica dizer que, sim, vemos em tela cenas que equivalem ao período dos acontecimentos do Hotel Overlook. Como lidar com as diferenças dos atores? Só para citar o exemplo mais óbvio, Jack Nicholson hoje é um senhor octogenário. Poderiam fazer rejuvenescimento digital, mas (puristas, calma, peguem um copo d’água) trouxeram novos atores para interpretar os papéis. É ÓBVIO que eles não foram idênticos aos originais. Mas, sim, fizeram um ótimo trabalho reinterpretando figuras tão icônicas.

OLHANDO PARA O PASSADO

Mas é claro que, não sendo os mesmos atores, a mesma equipe, e o mesmo diretor, as coisas não serão idênticas. O desejo de trazer de volta a fotografia e movimentações de câmera de Kubrick são óbvias em Doutor Sono, mas isso não acontece o tempo todo. Só nas cenas mais marcantes, e que mais se relacionam com o antecessor. Pode causar estranheza, e até faz falta de certo modo. Mas convenhamos, é justo: imagine você ter que fazer o seu trabalho, o tempo inteiro, copiando o de outra pessoa? Não estamos falando sobre dever de casa!

Mas essa relação passado/futuro me leva a uma pequena crítica: em diversos momentos, a necessidade de fazer referência leva a cenas forçadas. Difícil dizer se a decisão vem dos livros de origem (Faltou esse aviso: não li nenhum dos dois), ou da criação de Doutor Sono. Mas, por exemplo, a Cena da Escada é quase ipsis litteris o que já foi visto. Quer dizer que é ruim? Não. Quer dizer que a sensação de “já vi isso antes” bate forte. Não é só uma continuação, é um revival.

PASSANDO CONHECIMENTO

O que já nos trás a um ponto positivo de Doutor Sono: Ele complementa, E MUITO, O Iluminado. Uma crítica feita a ele é que Kubrick, na tentativa de passar suas visões e sentimentos, acaba suprimindo muita coisa, além de efetivamente mudar fatos (que são o motivo de irritação de King). Flanagan tomou a difícil, porém correta decisão de fazer com que Doutor Sono seja uma continuação do filme O Iluminado (por ser mais popular), mas trazendo muita informação e citação das obras literárias. Isso o torna um filme mais completo, e que faz um favor ao de 1980.

VERDADEIRO NÓ

Doutor Sono, porém, tem um problema mais grave que os já apontados: diversas coisas nele são sem sentido. Vou comentar mais na Sessão P.S., mas se você sair do cinema pensando “eu esperava mais”, não se espante. Ele não entra para o panteão de grandes clássicos do cinema, em definitivo.

ABRA CADABRA

Não podemos sair sem falar dos dois protagonistas. Já elogiei as atuações mais cedo e, agora tenho que destacar o Dan de McGregor, mas principalmente Abra Stone (Kyliegh Curran). 

McGregor está incrivel. É um homem que viu o inferno muito novo, e achou outro que substituísse o anterior, e busca por redenção. Você sente perfeitamente a fase sombria e luminosa dele. Muito bom.

Mas Kyliegh, essa sim, é um diamante em tela. Não só a personagem, a atriz mirim também, em suas duas fases. Ela consegue exprimir perfeitamente as emoções que são necessárias. Consegue ser, ao mesmo tempo, uma adolescente tão irritante quanto qualquer uma pode ser, e uma pessoa extremamente madura, que consegue ler a mente de todos, portanto conhece sofrimentos além dos seus. Consegue sentir dor mesmo quando não há ninguém consigo em cena. Consegue ser confusa, consegue até mesmo ser um homem adulto! Impecável.

A personagem Abra per se já merece parabéns. As vezes, causa estranheza ver uma criança / adolescente tão madura. Mas para quem já teve de ver o que ela viu, faz sentido. Fora que ela nunca é um “problema” para os adultos. Nunca é um estorvo. Ela é a ameaça. Ela é quem comanda. Ela é o pivô, e o planejador. Ao mesmo tempo que é uma menina que curte musica pop no seu fone, é também a pessoa que adora corrida (como podemos ver no seu quarto), e as duas estão em tela. A Força é forte nessa menina, e dá vontade de ver essa personagem de novo

CHUPA ONZE!

(inclusive, pelas datas de lançamento, a Onze pode ter sido inspirada nela, mesmo).

CONCLUINDO

Doutor Sono é uma ótima continuação, mas definitivamente não é um filme tão grandioso quanto seu antecessor, O Iluminado. Mike Flanagan fez um ótimo trabalho, e teve muito respeito tanto por Kubrick quanto por King, mas não foi dessa vez que entrou para os grandes nomes do cinema. 

Independente disso, vale muito a pena assistir! 

MOMENTO P.S.

Cara, vamos lá: que plano final é esse?

Tipo, pra que levar a Rosie pro Overlook, se na prática, a gente já sabe o que mata a irmandade do Nó? Que é TIRO! De fato, ela era muito mais preparada do que seus companheiros, mas voltar para o hotel é pedir para morrer.

O que me leva a… em certo momento, alguém comenta com o Dan “é como se você estivesse carregando os problemas de outra pessoa”. Mas na verdade, é o contrário. O filme não é sobre libertar a nova pessoa com o Brilho a se safar dos perigos. É sobre o Dan, ou melhor, o Danny, conseguindo se livrar dos seus próprios demônios – o hotel, as aparições, o pai. E a Abra, essa sim, tendo que lidar com as questões dele.

Falando na irmandade: Fora a Rosie, o Corvo e a Snakebite, são todos inúteis. Tão ali só pra compor elenco, pra fechar 7 pessoas certinho.

A última cena é meio estranha. Veja, os demônios pertencem ao Overlook, certo? Eles ainda perseguiam o Danny por fome, mas eles estão atrelados ao hotel, certo? Posso estar errado. Mas, se estão, a ultima cena fica esquisita. Por que a assombração aparece na banheira, se sua origem foi destruída? Ela devia ter ido junto com ele, não? Por favor, respondam nos comentários!

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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