Sempre falo aqui, eu prefiro ir pro cinema sem saber muito sobre o filme que eu vou ver. Isso ajuda em algumas análises, mas de vez em quando, tem seus reveses. Como, por exemplo, não saber que Era Uma Vez Em… Hollywood (Once Upon a Time … in Hollywood, 2019) é uma reconstrução de um fato histórico, a la
Quentin Tarantino. Fato esse que eu conheço nada.

SINOPSE
Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator de ação em decadência. De mocinho de séries e filmes de bang bang e guerra, agora só consegue fazer vilões, talvez tenha que escapar para o cinema italiano. Cliff Booth (Brad Pitt) é o seu dublê e faz-tudo pessoal. E Sharon Tate (Margot Robbie) é uma atriz pouco conhecida, mas muito querida, esposa de Roman Polanski (Rafal Zawierucha). São todos vizinhos na Cielo Drive, e vivem suas aventuras em 1969.

POIS É
Se você entende um pouco de história de cinema, história de seitas, ou enfim, leu a sinopse em qualquer outro lugar, você já sabe do que Era Uma Vez se trata. Eu não sabia antes, e… sei lá, de certa forma foi bacana.
Enfim, divago.

TARANTINO
Tarantino, diretor de Era Uma Vez é uma figura que varia entre o gênio e o desprezo. Cada pessoa que o avalia o põe numa redoma, e defende sua posição com maior força possível. No geral, para colocar a si mesmo/a num lugar de superioridade. Minha posição sobre ele é intermediária: eu acho ele muito bom, gosto muito de seus filmes, mas pra ser gênio… não, não diria. Só o Robin Williams e o Will Smith foram gênios. (Sacou, sacou? Piada ruim).
Pra que dizer isso: pra tirar logo da frente essa ideia maluca de que, só por ser um filme do cara, você é obrigado a gostar, por ele ser genial. Era Uma Vez não é incrível.
Por outro lado, você não precisa ir pro outro extremo e odiar. Porque Era Uma Vez não é horrível. Pelo contrário, é muito bom.

GENIAL
Onde ele acerta muito? Nas coisas em que ele sempre foi reconhecido. A fotografia de Era Uma Vez é incrível, os enquadramentos e capturas são impecáveis. Os diálogos… a história dirá se são tão icônicos quanto os que vimos em Pulp Fiction e em Cães de Aluguel, mas ainda são de alto nível. A montagem está excelente.
Uma coisa a ressaltar é a produção, para reconstrução histórica da Hollywood de 1969. Se você olhar na página de erros do IMDB, vai encontrar vários deles. Mas repare, são pôsteres anacrônicos, ou relógios que não existiam na época. São coisas pequenas, para o contexto geral, para a obra.

ATORES
A Margot Robbie está sublime como Sharon, a esposa do renomado diretor de O Bebê de Rosemary. Em toda cena, ela tem o dever de reconstruir como seria essa pessoa que, apesar de conviver com os altos e baixos de Hollywood, carregava ainda um olhar sublime sobre as coisas, e sobre a vida. Ela é radiante. Apesar de estar um pouco apagada, a bem da verdade. Muitas cenas “tarantinescas” são dedicadas a mostrar o cotidiano dela, e algumas vezes você vai se perguntar o porquê de estar assistindo algumas arrumações de roupa, ou escolhas de música.
Dalton e Booth (DiCaprio e Pitt) são dois personagens criados para Era Uma Vez. O primeiro, numa certa ironia, está vivendo uma situação “Inception”: é um ator que já não é mais tão jovem, tendo que viver personagens diferentes do que lhe deram fama. A metáfora com seu intérprete para aí, uma vez que na verdade, a parte avançada da carreira de DiCaprio foi o que mais lhe deu reconhecimento. Mas ele se prova, mais uma vez, um profissional fantástico. Interpretar um ator não foi trivial, mas ainda assim ele trabalha com maestria. Ver o ator decadente se esforçando para se reerguer é muito legal – com direito a cenas do filme que está sendo gravado neste filme. É meio confuso, mas assistindo você entende.
Booth é um ex-combatente, com passado duvidoso, que trabalha como dublê para Dalton e, nas horas vagas (que infelizmente, são muitas) serve como um ajudante faz-tudo. É forte e talentoso (com direito a um duelo com um mestre), mas pode acabar encontrando, sem querer, algumas coisas muito estranhas.

TEMPO
Filmes de Tarantino são longos, em sua maioria. Você, leitor, certamente já está preparado, então eu não preciso te alertar. A bem da verdade, na maior parte da sessão, você não sentirá o tempo passar. Mas…
E aí, é uma coisa que nós vamos ter que decidir, juntos, se é um problema ou não. Era Uma Vez tem DIVERSAS passagens que são irrelevantes. São grandes narrativas, contam uma história, que na prática, você não precisa muito. Nem como construção de personagem. São barrigas, gorduras, chame como quiser. Porém, “Isso é muito Tarantino”. Ele é um diretor que construiu seu nome, dentre muitas coisas, nesse estilo de narrativa. Demorado e sem pressa, onde muito é falado, pouco é dito, mas muito é visto. É um cara que sabe a história que quer contar, E CONTA. Sem se importar muito se vai levar mais tempo do que (supostamente) necessário.
É meio doido pensar como, em outros filmes, isso seria imediatamente considerado uma falha. Mas para ele (não só ele, é claro) é considerado um estilo, é valorizado, até aclamado. Então, fica a reflexão para o espectador: são falhas ou acertos? Necessários ou não?
Eu não sei. Mas em diversos momentos, me deixou um pouco cansado.

CONCLUINDO
Era Uma Vez em… Hollywood é, como o nome diz, um conto de fadas. Uma história fantasiosa contada sobre um lugar real. Toda a narrativa está aqui para te envolver num sonho que existiu, para que no final você seja despertado. E funciona. Não é genial, mas funciona. Fica a nossa recomendação (e por favor, leiam o momento P.S.)
MINI-CAST
Se você já assinou o nosso feed, já recebeu o programa no seu agregador de podcasts. Você também pode ouvir no Spotify, ou clicando abaixo.

MOMENTO P.S.
Bom, você não foi otário que nem eu, leu notícias sobre, e já sabe que: Sharon Tate é assassinada pela seita do Charles Manson. Eu não fazia ideia. E é chato, porque eu queria ter esse background. Principalmente porque:
Tarantino tá muito na vibe de reescrever a história, veio.
Bastardos Inglórios, Django Livre (em partes), e agora aqui, em Era Uma Vez, Tarantino resolveu por o “e se” na tela, e mudar a história. Tate morreu grávida, esfaqueada? O caramba! Booth está aqui para impedir. E Dalton tem um lança-chamas em casa. Não vai ficar barato! São realmente cowboys! Cada mordida do cachorro, cada batida da cabeça na parede, você sente que é a vontade do diretor por trás, como ele gostaria que tivesse acontecido.
Ficou bom? Ficou.
Mas saber sobre o que era o filme me fez pensar que eu veria a história recontada. No sentido de contada de novo, não de re-criada. Me fez pensar que talvez eu preferisse ver um documentário (mais informativo, mais objetivo), mas era esse destino que eu esperava que acontecesse. Mas não, foi mudado. Me causou incomodo. Eu entendo – muito – a vontade por trás, só que não era o que eu esperava.
Só que a culpa pela expectativa não é de ninguém além de minha, não é mesmo?
De qualquer forma, vale a pena a pesquisa por Manson e sua seita de hippies assassinos (alerta de estereótipo).
Abraços, até a próxima!
