Protagonismo Negro nos videogames

Protagonismo Negro nos videogames

Nos meus idos trinta e poucos anos de vida, posso dizer que boa parte deles investi atravessando universos feitos de pixels e vetores. Esses mágicos mundos que podemos acessar quando colocamos uma caixa na tomada, e ligamos numa TV, usando peças plásticas que seguramos nas mãos e apertamos outras peças plásticas móveis nestas. Em quase todas essas representações pude controlar uma infinidade de personagens: Naves espaciais, alguns animais antropomorfizados e, claro alguns humanos. Bem como já tive várias designações: Soldado, guerreiro, mago, herói, espião, pirata espacial. É preciso observar no entanto que, quando tive a oportunidade de ser uma pessoa, e pressupondo que esse jogo destaque um protagonista, poucos foram os universos que me entregaram um personagem negro.

Protagonismo negro em pauta

O protagonismo negro vem sendo uma questão relevante de discussão, tais como a representação de outras minorias nos últimos anos. Pare e tente lembrar: Quantos jogos você já jogou em que o protagonista é negro? Você consegue sequer listar um? Eu com muita dificuldade consigo listar 3, e falarei deles mais tarde. Antes também precisamos considerar que personagens negros enquanto coadjuvantes são mais comuns, mas ainda assim não tão frequentes. Essa concentração pode contar negativamente já que, de certa forma, amplia a percepção de que o espaço de protagonismo é reservado para brancos. Isto é, nos jogos em que a etnia do protagonista é pré-definida.

Precisamos fazer uma ressalva importante aqui, que são jogos que permitem que o jogador possa escolher características de sua aparência, algo que vi nascer em MMOs e expandir em RPGs, e outros jogos de ação e esporte. Muita gente pode pontuar que estes jogos oferecem a possibilidade de representatividade. Contudo, existe uma questão nesse caso que é o fato deles omitirem a responsabilidade sobre a definição característica de como seu personagem deve parecer. De fato, isso não é um problema per se. Em alguns casos podemos argumentar que uma paleta de cores de pele não foi preterida, mas não vou entrar nessa discussão. Em suma, não se pode dizer que esses jogos oferecem uma representação negra como protagonista, penas uma possibilidade. Ademais, possibilidade não é o suficiente para desfazer uma construção de normalidade. Não entendeu? Eu explico.

Tela de criação de personagem do Dark Souls com um personagem negro
Tá bem feito! Mas não conta.

A normalidade e a disrupção

Tela de seleção de personagens do jogo Super Smash Bros Ultimate
Uma tela que é um excelente exemplo de como o protagonismo branco é normalizado

A normalidade no caso, é perceber que personagens brancos são aceitos como a norma dos personagens protagonistas. Falo isso pensando até mesmo no meu repertório. Uma vez que passei tanto tempo vendo jogos modelados especificamente para suas aventuras, protagonizados por humanos de cor de pele branca existe uma dissonância óbvia quando vemos protagonistas de cor de pele negra. A sensação de que existe um elemento “fora do lugar”, que ajuda a promover aqueles discursos que já conhecemos tão bem de “colocaram esse cara pra agradar XYZ” e outros derivados. Mas por que personagens negros não podem ser os heróis, guerreiros, magos, e peças centrais que movem as histórias que jogamos? Por que são no máximo coadjuvantes? Por que?

E a ouroboros desse discurso é que a razão vem justamente do fato de que essa representação nunca aconteceu. Ou melhor, por um longo tempo não aconteceu. Naturalmente ainda são poucos em comparação aos jogos em que protagonistas tem cor de pele clara. Isso forma uma consciência bastante hermética sobre protagonistas, em sua ampla maioria homens, heterossexuais, brancos. A disrupção ocorre quando se faz algo que enfrenta a corrente do que é “comum”. Algumas vezes gera hostilidade que é (se paramos pra pensar um pouco) completamente infundada. O que torna o sexo, cor da pele, e sexualidade do personagem intrínseca à sua atividade, ou sua vocação para o heroísmo? Será que essa não é uma pergunta muito mais pertinente do que “por que esse personagem é negro?” por exemplo? Ou ainda, por que não perguntamos “Por que esse personagem NÃO é negro?”. E minha resposta tá no começo desse parágrafo.

Exemplos!? Onde estão?

A proposta nesse texto não é girar em torno dessa dissonância, mas destacar que dentre a infinitude de jogos que joguei só consigo nomear de cabeça 2 que possuem protagonistas declarada (e decididamente) negros, e um terceiro que eu interpreto como tal. Dandara. Árida. Scourgebringer. Os 2 primeiros eu já fiz textos aqui, e são jogos que admiro profundamente, além de ter um enorme orgulho em saber que são brasileiros. Assim, falemos um pouquinho do outro jogo.

Scourgebringer e sua força!

Olha que lindo!

Scourgebringer (XBOX, Steam, Switch) é um jogo com ritmo acelerado e na qual você controla uma espadachim que está tentando encontrar um caminho de possível redenção para toda a humanidade. O jogo é veloz e preciso, com muita qualidade visual, e tem uma trilha alucinante. O que mais me fascina nele é a sensação de força e poder que o jogador é capaz de experimentar, conforme progride no jogo. É delicioso, e coroado por todas as sensações provocadas pelos efeitos visuais primorosos do jogo. É claro que tudo isso pode colocar em segundo plano o fato da personagem ser ou não negra. Por outro lado, é algo que realça ainda mais essa percepção para quem está atento. 

Tela do jogo Scourgebringer com vários feixes de raios inimigos cobrindo a tela, e a personagem cortando algo no ar.
Você é um borrão de destruição dos ímpios. Formidável!

Um jogo é composto de muito mais do que simplesmente seus pixels, vetores, e aquilo que está contido na experiência direta de exposição ao mesmo. Ao mesmo tempo, um jogo é também composto por seus jogadores, suas discussões, pelas artes que são feitas em sua homenagem, e pelos discursos que carregam para fora de seus jogos. Dessa forma, algo aparentemente inócuo como o fato da personagem ser negra pode tomar dimensões muito maiores do que a importância que isso tem para dentro do jogo. Mais ainda, lembra do que falamos no começo sobre a normalidade construída pelo que é comum? É dessa maneira, quando mais e mais jogos apelam para o diferente desse “comum” que vamos perdendo a estranheza relacionada aos personagens que estão nesses diferentes cargos e títulos.

Haverão mais. E estaremos aqui para continuar cobrando

Tela com o o personagem CJ de San Andreas, andando de bicicleta
Meu revisor (ferna) lembrou bem do CJ, que é sim um clássico!

É claro que esses 3 não devem ser (com certeza não são) os únicos jogos com protagonistas negros. Ainda assim, já é muita coisa que sejam os únicos que eu consiga lembrar sem fazer uma extensa pesquisa, tirando de cabeça. Certamente a comunidade indie, desenvolvedores que não participam da indústria mais popular e massiva, reúnem títulos que em termos de representatividade serão muito mais plurais. Do mesmo modo, reforço uma vez mais que é preciso sempre que possível apoiar jogos desenvolvidos fora das esferas mais massivas, onde novos discursos são mais frequentes e podemos reconhecer com mais clareza minorias em papéis de protagonismo. No entanto, isso não desobriga que cobremos e lutemos por um protagonismo negro, de outros gêneros, ou sexualidades em jogos da indústria massiva. 

Não existe um caminho certo e específico para defender a representação e a representatividade, sendo todos os caminhos importantes. Hoje posso sorrir de saber que reconheço jogos que personagens negros protagonizaram. Podem ser poucos, mas sei que é comum colecionar anos de gameplay sem jamais ver um protagonista negro. E para o futuro desejo que isso não mais seja uma questão. Que tenhamos representações tão fortes e frequentes que estaremos vivendo uma outra normalidade. Sei que é utópico, mas permitam-me sonhar. Mas e você? O que sonha pra cena de jogos? Aproveita e conta pra mim se você conhece um jogo com protagonista negro que eu não listei! Quanto maior a lista melhor, né? Abraços e até o próximo texto!

Falando de algum lugar no universo - Felipe Barros de Sousa

Um coringa no baralho. Eu falo e filmo, sou bichão mesmo. Falou de jogos, filmes, música, animação, mangá, e o que mais vier, tamo junto.

4 Comentários
  1. Responder Pedro Henrique Corujeira Pereira 10 de novembro de 2020

    O texto ficou muito bom, Totoro! Assim como você, quero poder sonhar com um futuro em que veremos mais protagonistas negros não só nos indies, mas nos triplo A também.

    1. Responder Felipe Barros de Sousa 10 de novembro de 2020

      Obrigado pelo comentário e consideração bonitão! E sonho que se sonha junto é realidade! :D

  2. Responder Marleson 10 de novembro de 2020

    Esse texto é tão bom e tão necessário... Lembrei do único jogo que joguei assiduamente durante toda minha infância e adolescência, que foi o finado Grand Chase, rpg coreano, fez um sucesso significativo, etc. Em determinado momento eles abriram uma votação para escolhermos algumas características de uma personagem brasileira e escolhemos que ela fosse negra dos cabelos prateados. Levou um tempo para que ela ficasse pronta e recebemos incialmente uma peersonagem negra, que ao tempo que novas artes iam saindo ela ia ficando cada vez mais embranquecida e as artes mais atuais ela já é totalmente embranquecida.

    1. Responder Felipe Barros de Sousa 10 de novembro de 2020

      Obrigado pelo comentário meu querido! Esse branqueamento é mais um reflexo dessa normalização. Porque o "branco" é o "normal", né? Mas aos poucos percebemos como essas posturas minam nossa luta, e podemos bater de frente com elas. Aos poucos vamos transformando a realidade e (quem sabe) redefinindo a normalidade.

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