Snowpiercer já apareceu aqui no site, mas ficou faltando um complemento: quais debates a série pode trazer ao espectador?
Retomando
Então, no texto anterior, fiz uma resenha sobre o seriado, que eu gostei muito. De lá pra cá, vi que muitas críticas à série foram negativas. Achei estranho, uma vez que gostei bastante dela. Mas enfim, talvez o “efeito maratona” (ver a série toda de uma vez) tenha influenciado minha percepção positiva. Isso, aliado ao fato de ter tanta informação na série, e de que uma vez que você já escreveu sobre uma obra, é difícil querer escrever de novo, me fizeram demorar de voltar.
De qualquer forma, uma vez que Snowpiercer – seriado – expande os conceitos do filme de 2013, tem muita coisa a ser dita sobre ele. Tanto que eu preciso fazer um recorte. Então a brincadeira vai ser a seguinte, vou usar alguns personagens principais como catalisadores de alguns desses temas. Então é claro que algumas coisas vão ficar sobrando – e vocês vão ter que lidar com isso. Já peço desculpas de antemão. Vamos lá.
1 – Andre Layton – a liderança revolucionária

1.1 – Andre, vida e obra
Andre (Daveed Diggs) era um detetive de polícia antes de entrar no Snowpiercer. Ele já tinha um relacionamento amoroso com Zarah (Sheila Vand), antes de invadirem o Snowpiercer na tentativa de sobreviver. Como não tinham comprado ingressos, se tornam fundistas.
Layton nunca se acomodou à situação do Fundo. Afinal, por mais que não tenham comprado ingressos, o Snowpiercer é a arca que leva os últimos sobreviventes da humanidade – não podem ser só os ricos a serem salvos, caramba! É um dos integrantes dos grupos que planejam a revolução do Fundo, tentando suprimir a opressão armada do restante do trem, para conseguirem condições de vida melhores. Curiosamente, Andre é o único detetive do Snowpiercer, o que o torna um indivíduo valioso para a administração do trem.
1.2 – Como motivar as massas?

Layton tem um papel fundamental na revolução de, ao mesmo tempo, motivar todo o grupo de fundistas (ou ao menos, de agregar um número grande o bastante para que esse movimento seja relevante) e mantê-los focados para que consigam agir na hora certa, nos locais certos, e da maneira correta. Isso não é fácil, uma vez que a melancolia e a raiva são sentimentos que estão presentes com força, e precisam ser bem direcionados: a melancolia (o sentimento de que nada por ser feito) necessita se tornar motivação; e a raiva precisa ser concentrada e controlada, para ser usada no momento correto. Ele precisa ser inteligente para fazer planejamentos, mas também precisa confiar no seu pessoal e não tratá-los como inferiores.
Andre precisa ser como vários líderes revolucionários da nossa história: carismáticos, firmes, fortes e generosos. E ele o faz sem parecer precisar de muito esforço, o que é ótimo.
Bom, é claro que essas características nem sempre indicam que o líder ou a causa é honesta e válida. Mas no contexto de Snowpiercer, podemos afirmar que é, sim, um motivo relevante (pra dizer o mínimo). Teria Layton lido “O Que Fazer”?
1.3 – Diálogo político
Diversos influencers políticos que eu acompanho, a saber: Sabrina Fernandes, Silvio Almeida (para citar exemplos) são bastante claros ao dizer: “não pretendo tentar carreira política. Meu papel não é esse”.
Existem vários motivos para isso (vou pedir que o leitor faça suas pesquisas com relação aos supracitados), mas quando eu me imagino num papel político “de carreira”, é sempre terrível. Porque são papéis baseados no diálogo (assim se espera), onde deve-se pesar não só os seus interesses e do seu grupo, como ser capaz de dialogar com outras forças políticas, incluindo possíveis burocracias envolvidas. Sem contar as movimentações internas, entre seus aliados! É muita coisa para tentar manter nos eixos.
Andre tem a função de dialogar com a Frente, explorar e entender o trem, e ainda assim manter o Fundo motivado, sem se deixar desmotivar internamente.
1.4 – Decisões difíceis

Layton teve que abdicar de vários dos seus amigos que estariam no vagão prestes a descarrilar, pelo bem da revolução e dos outros fundistas. Se deixou apanhar e ser preso algumas vezes. Teve que pôr aliados em posições arriscadas, sabendo que eram arriscadas. É tanto foco no bem maior que sobra pouco tempo pro amor próprio. Inclusive, sobra pouco tempo pro amor.
1.5 – Amor Verdadeiro em Tempos de Crise

Depois desse putetê todo, você ainda vai pensar em se relacionar com alguém?
Vai, porque você é humano.
Mas você vai amar quem? A pessoa que você amava antes, mas entrou a contragosto no trem, odeia profundamente aquele lugar (quem gosta?) e que, quando a oportunidade surgiu, escapou pra frente? Ou a que ficou ao seu lado quando vocês nem eram um casal ainda, bancando suas missões e ajudando em tarefas e planejamentos?
De qualquer forma, poliamor resolveria.
2 – Melanie Cavill – Mais próxima de Deus

2.1 – De Engenheira a Secretária
Melanie (Jennifer Connelly) é engenheira formada pelo MIT, foi mãe de uma garotinha, mas deixou-a para trás ao subir no Snowpiercer. É umas das engenheiras chefes do projeto Snowpiercer, tendo projetado ele de cima abaixo. No início da narrativa da série, ela é a chefe das Secretarias (Hospitality), a única que ainda tem contato com o Wilford, que está sempre fechado dentro da locomotiva. Ao decorrer da série, descobrimos que Wilford está morto (ou ao menos, não está no trem), e que Melanie manteve a aparência de sua presença todos esses anos.
2.2 – Ser a Voz de Deus

Como eu disse no primeiro texto, uma vez que a Locomotiva tudo provê (energia, água etc), ela é tida como divina. E o homem que a idealizou é tido como deus, que teve a benevolência de permitir que os últimos sobreviventes do planeta subissem a bordo do Snowpiercer. Mesmo a vida miserável dos fundistas não foi dizimada graças à ele. Melanie herda um pouco dessa aura.
Mal sabe o resto do Snowpiercer que é ela quem faz tudo. Por outro lado, ela se sai bem, porque ela faz as coisas não porque queira, mas porque “Wilford mandou”. Bem conveniente.
Nesse local social, ela ganha o status de uma sacerdotisa, ou alguma imperatriz de um império teocrático. Ou seja, domina a narrativa simbólica, tem legitimidade para fazer quase tudo, DESDE QUE mantenha tudo funcionando direitinho – por mais que esse “funcionar” não tenha nada a ver com o trabalho dela. O que tira de letra.
Melanie é tão perigosa quanto qualquer pastor que queira se promover à custa da fé dos outros. Ou de um político que capitalize esses votos nas urnas. Reflitam.
2.3 – Reprodutor de sistema desigual é uma pessoa com pensamento desigual?

Então, a política interna do Snowpiercer é claramente a de um estado totalitário (como dito num dos episódios, acho que o segundo). As desculpas abundam: a primeira classe pagou o ingresso; não tem comida pra todos; não tem espaço pra todos; os fundistas são invasores, nem deveriam estar ali; por aí vai. Esse sistema não foi pensado por nenhuma pessoa do trem senão o sr. Wilford, então a culpa é dele…
PORÉM,
Melanie projetou o trem, e o controla desde a sua partida.
Então, NÃO ME INTERESSA se não foi ela quem idealizou; se ela só tava mantendo as aparências; se ela só queria que a “estabilidade interna” do Snowpiercer se mantesse. Ela é CULPADA, DIRETAMENTE, pela miséria que a maior parte dos habitantes daquele trem vivia. E eu não tô nem aí se no fim do dia ela chora no banho lembrando da filha. Foda-se. Queria fazer diferente? Fizesse diferente.
Aqui a gente volta um pouco pro tópico anterior, no qual comentamos os excessos possíveis do poder simbólico. Gente do nosso mundo (o real) fazendo uma série de abusos e desmandos “em nome de Deus” existe numa quantidade absurda. E se tem uma coisa democrática nessa vida, é a escrotidão humana: toda religião ou instituição que se baseie num sistema hierárquico muito forte vai ter pelo menos uma história nesse sentido. Não é brincadeira: parem de deificar as pessoas!
2.4 – Construtor de sistemas totalitários é uma pessoa totalitária?

Pois é, um pouco do anterior ainda. Se a pessoa não é a idealizadora do sistema maléfico, mas é uma das responsáveis pela sua manutenção, ela tem culpa também ou não?
Eu não estudei Hannah Arendt o bastante pra falar sobre a Banalidade do Mal, mas o lance é: ela não era uma simples operadora do sistema. Era uma executoras de nível mais alto e, por 7 anos, tinha o poder TOTAL do trem. Ela não era uma alienada do processo. Ela detia o andamento do processo. Arendt não é suficiente aqui.
3 – Bess Till – militar com consciencia

3.1 – De um uniforme pro outro
Bess (Mickey Sumner) era policial em Detroit antes de entrar para o grupo dos guardas do trem (eu não achei a tradução para Breakmen dada na série). Apesar de ser uma boa profissional, começa a se incomodar com as injustiças que acontecem no trem diariamente. Bess abandona seu posto regular e se torna um dos braços fortes da revolução fundista. Ela tem um romance com Jinju Seong (Susan Park), que começa escondido, porém ambas conseguem assumir e até se casar! O romance tem um fim trágico, mas terminam a série vivas.
3.2 – “Um militar sem formação política, ideológica, é um criminoso em potencial”

A citação acima, de Thomas Sankara, tem muito a dizer para nós, que vivemos no Brasil de 2020. Quando olhamos para Bess e seu colega Osweiler (Sam Otto), acabamos tendo uma analogia perfeita para essa frase.
Bess, apesar de trabalhar como “guarda” do Snowpiercer – com tudo o que estar nessa função implica – não deixa de se incomodar com algumas situações. Principalmente as que envolvem maus-tratos contra indivíduos.
Osweiller, por outro lado, não parece nem um pouco incomodado em utilizar de seu poder de forma corrupta: prostitui fundistas por favores, trafica drogas, tortura pessoas, agride fisicamente, entre outras coisas. Quando está destituido de poder, se mostra covarde e medroso. Mas como isso não acontece com frequência, temos um problema aqui. Um problema que anda com uniforme e cassetete.
A consciência de classe, para além do poder de convencimento de Layton, faz com que Bess mude de lado. Não é difícil entender que os desequilíbrios presentes no trem não são saudáveis para ninguém. É a diferença de pensar no próximo mais do que pensar em si, afinal ela era uma terceirista que foi promovida a segundista.
3.3 – Militância e Vida Pessoal

Falando nisso, Bess sobe para a segunda classe quando se casa com Jinju. O problema é que elas pensam de forma totalmente diferente no que diz respeito ao poderes dentro do Snowpiercer. Bess acredita que o fundo e a terceira sofrem mais do que seria necessário para o bom andamento do trem e acredita que a revolução é necessária. Jinju é uma das mulheres fortes próximas à Melanie (é uma das poucas que sabem da verdade sobre Wilford). Ela pode até entender que o Fundo passa por mais sofrimento do que deveria, mas entende que a forma como o trem opera possui um equilíbrio que não deveria ser quebrado, pois senão o caos ocorreria.
Muitos militantes acabam tendo muitos problemas na vida pessoal, porque precisam pesar o quanto vale a pena se sacrificar pelos seus ideais e o quanto é necessário ser menos ativo pelo bem da sua família ou de pessoas próximas. É uma equação muito injusta, pois a luta pelos ideais também é pelos seus próximos. Só que quando os ideais são diferentes, fode tudo. Dá pra comunista casar com liberal?
Elas formavam um casal muito bonito. É uma pena.
4 – Miss Audrey – O que a gente precisa pra classe média se mover?

4.1 – A dona do carro noturno
Pouco sabemos sobre Audrey (Lena Hall) antes de entrar no Snowpiercer. Ela é a chefe do Carro Noturno, um espaço que foi projetado por Wilford para ser uma espécie de bordel, mas conseguiu transformá-lo num local para entretenimento, com bar, pista de dança, e espaço de meditação. Miss Audrey tem uma forma de poder que não vem do dinheiro ou das armas: ela tem o poder popular. As massas a ouvem e isso é muito poderoso. Até porque, é a Terceira que mantém o trem rodando.
4.2 – Aliada
Apesar de ter um local de destaque dentro do Snowpiercer, Audrey conhece suas limitações e a dos outros passageiros. Ela possui uma série de anotações sobre o cotidiano do trem, que pode vir a ser uma bomba política (isso não é usado, inclusive). Audrey parece concordar com a revolução fundista, mas para que ela se movimente com força nesse sentido, algo mais precisa acontecer.
4.3 – Perdas pessoais e inércia

É só quando Nikki (Madeleine Arthur), uma das funcionárias do Carro que “desapareceu” é encontrada morta, que Audrey se torna ativa no processo de modificar as estruturas atuais do Snowpiercer. Apesar de ser da Terceira, Audrey vivia relativamente bem, por mais que fosse clara opositora à Melanie.
Isso me faz pensar no que efetivamente leva a classe média a se mobilizarem para mudanças sociais mais efetivas. Precisou que uma conhecida morresse para que essas ações mais contundentes passassem a acontecer. O ideal é que esse tipo de sacrifício não fosse necessário – e fica a dica para nós, também. Começar a lutar por mudanças agora, não quando for tarde demais.
5 – L. J. Folger – o tédio da burguesia é perigoso

5.1 – burguesinha burguesinha burguesinha…
LJ (Annalise Basso) começa a série meio insignificante. Filha de pais ricos, moradora da Primeira. Parece ter o tédio blasé de ricos que não gostam da própria vida – mas que não a trocam por nada. Tem um certo fetiche pelos pobres da Terceira. Ela é muito nova, mas claramente possui uma malícia destrutiva. É uma pessoa extremamente manipuladora, principalmente com homens – seu pai, seu segurança etc.
5.2 – Permissividade na criação

Antes de passarmos para a política da situação, tem uma coisa importante na criação da LJ: ela é uma pessoa problemática desde a infância. MAS NÃO HOUVE NENHUMA REAÇÃO DOS PAIS PARA QUE ELA FOSSE EDUCADA CORRETAMENTE! Como que você deixa uma criança arrancar o olho de uma pessoa e fica de boas com isso? Sendo que essa pessoa é o pai dela! E permite que ela… chupe o olho de vidro… do pai, caralho, que nojo.
LJ é criada não só com as regalias que são dadas à Primeira, mas ela é mimada mesmo. Eu gosto do termo em inglês para isso: “spoiled”, estragada. Ela é uma pessoa que cresceu com tantas regalias e permissões, faltando tantos “nãos”, que se tornou uma pessoa estragada. E nem precisou chegar à idade adulta para ser um perigo ambulante. Trata-se de uma pessoa que acredita que as leis e regras não se aplicam a ela – porque nunca se aplicaram, de fato. Não é a toa que ela enxergue os terceiristas e fundistas como bichos de zoológico. Do ponto de vista dela, não seriam muito mais que isso.
5.3 – O perigo do tédio
Num vídeo, o Atila Iamarino (biólogo pesquisador) explica como o cérebro espera estímulos constantes. E que, na falta deles, problemas muito pequenos podem se tornar imensos.
Pessoas de classes mais elevadas podem passar muito tempo sem fazer nada produtivo, ou nada. Isso se torna um perigo porque, para se livrar desse tédio, estímulos cada vez mais fortes são necessários. Ouvir um disco alto, no seu quarto, deixa de ser suficiente. Agora você precisa de um equipamento de som que alcance toda a vizinhança e perfurar os tímpanos no processo. Você não aguenta mais ficar em casa, você precisa sair pra ir no barzinho, sem máscara, com os amigos, “pelo bem da sua saúde mental” (eu odeio muito todos vocês).
Esse fator, somado com uma pessoa que já tem tendências destrutivas e que tem toda uma estrutura para ampará-la de se livrar de problemas torna LJ uma predadora. Pouco importa se não consegue levantar uma colher sem se cansar. Ela pode pagar quem faça, ou até mesmo manipular alguém que faça isso sem precisar ser pago. E pode se divertir emasculando pessoas por aí. Sem contar que…
5.4 – Permissividade
…que não vai acontecer porra nenhuma com ela. Foda-se, a verdade é essa. E ela sabe disso. E quando a água bate na bunda, ela logo percebe que a porra vai ficar séria e dá um jeito na situação.

É muito escroto ver uma merda dessa sendo negro, porque é sabido que isso acontece no mundo real, e não é segredo pra ninguém. A mesma polícia que absolve pessoas brancas é a que agride e executa jovens negros que não oferecem ameaça. A justiça que libera o filho do Batista depois de ter assassinado uma pessoa com seu carro é a mesma que considera que uma pessoa que roubou dois shampoos precisa muito ficar presa. A mídia que divulga jovens portadores de drogas é a mesma que não hesita em afirmar que um jovem favelado roubou uma moto.
Então assim, a gente tira algumas coisas disso. A primeira, é que o discurso moralista de que a polícia, pra fazer o certo, precisa “quebrar uns ovos”, é uma puta duma mentira. Porque tem um monte de ovo pronto para ser quebrado nas classes altas e eles ficam cheios de dedos, mas na periferia o couro come. E todo mundo sabe nas costas de quem a fanta desce primeiro. E quem a justiça libera. Justiça e polícia estão do lado dos poderosos, não da sociedade.
Justamente por isso, não é nenhuma surpresa que LJ seja absolvida. Não só por ter segredos contra Melanie, mas TAMBÉM por isso. O que só mostra como aquele julgamento nunca foi sobre justiça. E que Melanie, sim, mantém um poder totalitário no Snowpiercer, disfarçada de “voz de Wilford”.
6 – Wilford – O Grande Irmão

6.1 – Mistério.
Pouco se sabe sobre Wilford. Tanto na série quanto no filme, fica claro que ele era um bilionário que, ao ver que o planeta tava indo pro caralho, virando uma bola de neve gigante, ele tem a “brilhante” ideia de construir um trem que rode pelo planeta indefinidamente, mantendo assim as últimas pessoas do planeta vivas. Sabemos também que seus ideais eram bem pouco nobres e humanitários: ele só queria tirar o cu dele da reta, levar alguns chegas e/ou poderosos consigo e de quebra viver uma vida de luxo e excessos.
Pena que ele nunca entrou no trem e não conseguiu viver isso.
“Pena”.
6.2 – Reprodução do sistema anterior

Bilionário é tão filho da puta, que mesmo com o planeta acabando, tá mais preocupado em se sair bem do que em tentar ajudar. Me lembra um certo senhor pensando em colonizar outros planetas pra quem puder pagar. “Mas ele tá ajudando o meio ambiente com carro elétrico”. O que não deixa de ser poluente, pega visão.
Wilford vê o mundo se acabando e, ao invés de tentar finalmente equilibrar as contas, tornando o Snowpiercer um lugar agradável, por mais que exigisse trabalho, para todos, não: resolve manter uma sociedade de classes, IGUAL AO VELHO NORMAL.
“Mas ele não tinha como saber que as pessoas iam invadir e se tornar o fundo”. Primeiro que, na boa? Como assim não sabia? O mundo acabando, um monte de gente desesperada para sobreviver, é claro que ele pelo menos supunha que tentaríam invadir. Tanto que tinham guardas armados na partida do Snowpiercer! Mas, mesmo sem isso, ele já tava contando com a estratificação social do trem quando permitiu que as pessoas da Terceira entrassem, desde que pagassem com trabalho. Então é isso, rico não tá nem aí de manter um sistema de exploração que adoece quem faz parte dele, para poder manter os próprios privilégios. Paz entre nós, guerra aos senhores, foda-se.
6.3 – Mito, mito, mito
Essa é a parte interessante sobre Wilford: a maioria das pessoas do Snowpiercer não conhecem ele. Mas ainda assim, o temem ou o idolatram. Aquela cena do julgamento mesmo, se você pensa como se ele estivesse no trem, daria pra só ignorar o memorando dele. Essa construção da figura do chefe de estado ídolo é sempre muito curiosa. Existe uma vontade nisso, as pessoas querem acreditar nele, na sua boa vontade e altruísmo. É difícil não lembrar do Grande Irmão.
Eu lembro de Mussolini. E o final dele me anima um pouco.
A vantagem dos mitos é que ou não existem, ou estão mortos.
Tão deixando a gente sonhar.
7 – Pike – a ressava pós-revolução

7.1 – amigo atrasa-baba
Baba, aqui na Bahia, é uma gíria para jogo de futebol informal. O Pike (Steven Ogg) é aquele cara que é da galera, mas atrapalha mais do que ajuda. É outro personagem do qual conhecemos pouco. E talvez seja melhor assim.
7.2 – Oportunismo e falta de lealdade
Já são 1 da manhã, então as travas sociais já foram embora. Eu só tenho três palavras pra descrever o Pike: pau no cu. Ele é o tipo de cara que não tá nem aí pros ideais, ou pro bem do contexto social. Ele tá pensando nele, e nele somente. Enquanto um grupo, ou um movimento político, lhe servir, tá show. O importante é ele se manter confortável.
Só que tem uma revolução acontecendo. Não existe conforto possível.
Pike é o tipo de pessoa que merece atenção redobrada em qualquer movimento político. Porque ele é uma pessoa instável. Aproveitador que é, qualquer possibilidade de ganho pessoal pode lhe atrair. Lembram do Cypher, de Matrix?
Eu vou usar essa seção do Pike para falar sobre alguns incômodos.
7.3 – Clichês em filmes revolucionários
Dois tipos de narrativa são comuns em filmes que abordam revoluções: ou elas acabam quando a revolução acaba (“e viveram felizes para sempre”), ou a revolução dá errado.
Como a série mostra a pós revolução, a gente começa a ver sinais de como ela “deu errado”: saques nas áreas de alimentação, invasão de cabines da primeira que pertenciam a outras pessoas, formação de novas elites…
E me causa incômodo, na série, que se dê mais importância à destruição que os pós revoltosos causaram, do que ao fato de que eram pessoas que estavam passando fome e agora conseguiam comer. A revolução acontece, mas não sem que se mantenha Melanie Cavill no lugar.
No final das contas, a sensação que fica é de “ei, as pessoas vivem mal. Mas talvez revoluções não sejam a solução. Que bom seria se a gente conseguisse dialogar…”
Não existe diálogo. E não existe porque a Primeira e a Segunda não QUEREM. Porque o Fundo e a Terceira estão falando as demandas deles o tempo inteiro e são ignorados. Não existe diálogo, e não é por falta de tentativa. O diálogo não existe de maneira voluntária. Então não me venham com esse papo de “vamos nos amar mais”. Tem pessoas no Fundo querendo o direito de poder amar sem acordar com o braço decepado de frio.
Tem mais duas coisas a serem comentadas

7.4 – Caos pós-revolução
Sobre esse assunto, inclusive, já falei um pouco antes. A representação do caos acaba aparecendo, como se não fosse possível haver revolução sem desordem. Surpresa, é porque não tem como, de fato. Revoluções são rupturas no tecido social. A ordem será estabelecida. Problema pra mim é representar isso como se fosse uma coisa essencialmente ruim: “agora que essas pessoas tem o poder, a bruxa tá solta; os animais estão sem coleira”. O que só faz com que a pulga conservadora morda a orelha das pessoas “talveeez essa tal de revolução aí…”.
E aí eu volto tanto em 7.3, como em 3.2: primeiro que a outra alternativa seria o diálogo e esse não existe. A justiça não subiu no trem, já falamos sobre isso. E eu não consigo pensar que os revoltosos não tivessem formação política, uma vez que o Layton tava no comando. Mas tudo bem, vai que. Só que aí eu lembro da frase que ouvi no Lado B do Rio (não exatamente essa): se Bolsonaro sofrer impeachment, no dia eu só vou querer saber de beber e comemorar até me acabar. Eu vou pensar no vice, em quem vai entrar no lugar no dia seguinte. No dia que acontecer eu vou me esbaldar.
7 anos de opressão, se fodendo. Eu entendo a catarse.
7.5 – Formação de novas elites

Voltamos ao Pike. Uma das primeiras coisas que ele faz quando a revolução acaba é pegar o quarto da LJ pra si e fazer uma grande farra. Ele começa a dar ordens e a receber favores. É como se ele se tornasse uma nova liderança, só que paralela. Como se ocupasse um vácuo de poder. É como se ele fosse uma nova Primeira.
Perceberam a armadilha?
É como se a série nos dissesse “não adianta, sempre vai ter gente tentando explorar outras pessoas”. Quase como se fosse sei lá, algo da natureza humana.
Precisamos entender que pouca coisa que a gente considera “natureza humana” é natural, uma vez que nossos comportamentos em muito se baseiam em construções sociais.
Então o Pike é um personagem que, mais uma vez, causa receio no espectador. “Olha como ele é violento com a LJ”. “Veja como ele dá ordens”. “Repara como ele tá cagando pro Layton”.
Por sorte o Layton acaba com a farra dele logo. Caras como ele não devem ser empecilhos para projetos e, se vierem a tentar pôr o próprio plano em ação, devem ser retirados.
8. Conclusão
Pronto gente, eu prometi, e promessa é dívida. É claro que tem muito mais a ser dito sobre Snowpiercer, mas essas reflexões futuras eu vou deixar com vocês. Se quiserem debater, sabem que tô por aqui!
E… eu não devo escrever sobre Snowpiercer de novo. Foi um prazer, mas foi bem cansativo.
Nos vemos em breve!
Mais um texto incrivel! Parabéns!